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E as Calungas do Recife foram para…

Luiz Carlos Merten

08 Maio 2015 | 23h11

RECIFE – Terminou agora há pouco a cerimônia de premiação do 19.º Cine PE. E o júri integrado pelo diretor José Eduardo Belmonte e pela atriz Djin Sganzerla saiu-se muito bem, atribuindo três Calungas importantes a Cavalo Dinheiro, de Pedro Costa, mas reservando a maioria dos prêmios, incluindo o principal, para Permanência, de Leonardo Lacca. O longa do autor português ganhou também o prêmio da crítica, mas esse já era previsível. O júri deve ter levado em consideração o fato de ser um festival brasileiro, e o longa de Pedro Costa é, afinal, íbero-americano. Mas os prêmios de direção, fotografia e roteiro destacam a autoralidade de Pedro, porque ele assina a mise-en-scène e co-assina as demais funções. Retrato, em dois tempos – 1975 e 2013 -, de um homem confrontado com a doença e a morte, Cavalo retoma o personagem de Ventura, que o cinéfilo conhece da obra precedente do autor, e o próprio bairro de Fontainhas, que agora só existe como lembrança e mito. É um filme fantasmagórico, narrado em blocos de cenas tratadas como quadros que o diretor elabora com grande precisão cênica e refinamento audiovisual para refletir, por meio de Ventura e seus amigos, sobre o passado turbulento e o incerto futuro de Portugal. Nos últimos anos, principalmente a partir da apresentação de Juventude em Marcha no Festival de Cannes, Pedro Costa virou objeto de um culto sem fronteiras. A jovem crítica o ama em Portugal, no Brasil, na França e, nos EUA, os filmes da trilogia Fontainhas, lançados num pacote de DVDs da Criterion, atingiram um público expressivo e até surpreendente, dado o grau de exigência do autor. Além de melhor filme, Permanência ganhou melhor ator coadjuvante, Genézio de Barros – tinha de ser ele -, melhor atriz e melhor atriz coadjuvante, Rita Carelli e Laila Pas, e direção de arte. O melhor ator foi Lázaro Ramos, por O Vendedor de Passados e o longa de Lula Buarque de Hollanda ganhou também o prêmio de edição de som, que eu teria dado para o filme de Pedro Costa, que apresentou o mais sofisticado trabalho de som do festival. Mas a verdade é que, se o júri fosse levar em conta simplesmente a qualidade, Cavalo Dinheiro deveria ter ganhado tudo, menos, talvez, os prêmios de interpretação, e não porque seus atores, a maioria não-profissionais, não esteja muito bem. Houve, a boca pequena, críticas à curadoria de Rodrigo Fonseca, mas não as levei em consideração, porque envolvem antipatias pessoais e Rodrigo fez uma seleção autoral, mesmo nas suas escolhas de filmes que tentam dialogar com o mercado. Aliás, não me lembro de um festival recente do cinema brasileiro em que os filmes, inclusive o vencedor, entrassem imediatamente em cartaz e isso vai ocorrer, ainda neste mês, com Permanência, O Vendedor de Passados e com o longa de gênero de Jefferson De, O Amuleto. Ou seja, metade da seleção estará estreando nas próximas semanas, podendo beneficiar-se da mídia espontânea gerada pela exibição e/ou premiação dos filmes. O Cine PE homenageou com Calungas especiais a atriz e diretora Helena Ignez e o cantor, compositor e diretor Alceu Valença. O prêmio de Helena foi entregue por sua filha Djin, e foi um momento de muita emoção e delicadeza entre mãe e filha no palco do Cine São Luiz. Na sequência, Alceu Valença fez um circo no palco, preparando o público para seu musical sobre o cangaço, A Luneta do Tempo. Não dá para desgrudar o olho da tela enquanto cangaceiros e macacos trocam tiros ao som da trilha operística. Apesar dos percalços – e dos problemas de som detectados no blog -, o festival sobreviveu à crise anunciada. Mudança de local, redução de verba. Tudo isso e mais os longas de Pedro Costa e Leo Lacca. Que venha o 20.º Cine PE. E ah, sim, para fechar é preciso destacar que toda a premiação foi marcada por protestos contra a especulação imobiliária que ameaça descaracterizar o Recife. A defesa do bairro de Estelita – ocupar, resistir é a palavra de ordem – visa impedir que, como Fontainhas, vire fantasmagoria, soterrada pelos arranha-céus que já tomaram conta da orla.