As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

E aquele close?

Luiz Carlos Merten

04 de março de 2013 | 11h36

Fui ver no final de semana O Terraço, a peça de Jean-Claude Carrière no Teatro Nair Bello. A plateia ria enlouquecidamente, como se estivesse assistindo a um Sai de Baixo e Ilana Kaplan, que faz a corretora, com certeza contribuiu para isso. Tanta gente talentosa – Ilana, Vera Zimmermann, Marat Descartes, Marco Antônio Pâmio -, um desperdício. A peça é um óvni. Não é uma comédia, apesar do surto de riso que provocou, não é um drama, na verdade não é nada. Saí pensando com meus botões – mas esse Carrière, deitado sobre seus louros, não tem mais discernimento crítico? O co- autor da autobiografia de Luis Buñuel, colaborador do grande diretor em tantas obras-primas (e roteirista de Abbas Kiarostami, Philip Kaufman etc), é mesmo tão bom ou o gênio é dos outros com quem trabalha? Afinal, entregue a si, propõe esse ultraje à dramaturgia. Talvez tenha me irritado demais por tão pouco. Meu fim de semana de cinema foi melhor. Descobri que, na Galeria Olido, havia um ciclo, Brasil em Preto e Branco, com filmes dos anos 1960. Glauber, Deujs e o Diabo, mas me interessaram mais O Padre e a Moça, que nunca me canso de rever – o ‘meu’ Joaquim Pedro, com aquela fotografia de Mário Carneiro e a juventude de Helena Ignez e Paulo José -, e São Paulo S.A. de Luiz Sérgio Person, fotografado por Richardo Aronovich. Revi, também, em DVD, Esposamante, de Marco Vicario, e não me lembrava de que o filme fosse tão ousado, graficamente. Nunca me saiu da cabeça a cena da escada, filmada de cima, em que o médico toca a intimidade de Laura Antonelli e ela meio que desfalece, dse tão excitada – um a mulher com fama de frígida. Mas não me lembrava – será que foi cortada, afinal havia a censura -, do close na púbis de Olga Karlatos, cujos pelos ocupam a totalidade da tela. Aquilo, no cinema, devia ser um plano para não esquecer e Marcello Mastroianni, antecipando o gozo, literalmente baba. Vicario fez Esposamasnte em 1978 e, naquela época, os filmes demoraram mais para chegar ao mercado. Digamos que tenha estreado em 1979, ou 80. Teria de pesquisar. Mesmo assim, antecede de mais de dez anos a Thelma & Louise, de Ridley Scott, em que Susan Sarandon e Geena Davis caem na estrada e, repetindo a trajetória dos homens, liberam sua sexualidade reprimida. Thelma & Louise virou bandeira do (pós)feminismo, mas Laura Antonelli, também repetindo a trasjetória do homem – o marido que pensa estar morto – e, levada pelo cavalo de Mastroianni, também cai na estrada para se liberar. Esposamente tem música demais – uma sinfonia de Armando Trovajoli, com ele próprio ao pianoforte -, mas ainda é um belo filme. O marido, que é acusado de assassinato e precisou se esconder, assiste de longe, como um voyeur, ao desabrochar da mulher da qual se afastou, por considerá-la frígida. Mas ela nunca deixou de amá-lo, o que faz do filme, a despeito de seu apelo erótico – e cenas picantes -, um suntuoso melodrama de época, com ecos de Luchino Visconti e Mauro Bolognini, mas nenhum dos dois – eram homossexuais assumidos – filmaria a Antonelli daquele jeito. Vi ainda Peccato Che Sia Una Canaglia, a comédia de Alessandro Blasetti – de 1955 – que foi lançada no Brasil como Bela e Canalha, e agora é resgatada pela Versátil mais fiel ao título original, Pena Que Seja Uma Canalha. A jovem Sophia Loren é um assombro como ladra – a família inteira rouba: o pai, Vittorio De Sica, a avó, os irmãos pequenos – que se envolve com o taxista Mastroianni, e ele chega a ser ingênuo como modelo de honestidade. Embora a viscontiana Suso Cecchi D’Amico e o felliniano Tulio Pinelli (ou será Ennio Flaiano) assinem o roteiro – e Blasetti tenha sido um diretor de prestígio -, o filme é fraquinho. Blasetti foi a própria contradição, em termos – versátil, assinou superespetáculos históricos (A Coroa de Ferro e Fabíola), filmes de inspiração fascista (Velha Guarda) e precursores do neorrealismo (O Coração Manda/Quattro Passi tra le Nuvole) e, já no pós neorrealismo, comédias populistas como a que tem Sophia na pele da canalha. Achei interessante que De Sica, como o velho ladrão, passe o filme queixando-se da falta de rumo da juventude em ‘questi tempi’, o que, de certa forma, responde ao tempo perdido da velha guarda, mas deve haver ‘trocentas’ comédias da época que são melhores, para resgatar. Queria falar também sobre O Rio da Aventura, de Howard Hawks, mas vou deixar para o próximo post.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: