As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

E a realidade, de novo, supera a ficção. Sou Charlie!

Luiz Carlos Merten

08 Janeiro 2015 | 10h34

Confesso que está tudo misturado na minha cabeça. Saí ontem impactado da sessão de Invencível, totalmente despreparado para ver na TV as imagens do ataque terrorista em Paris, que resultou em 12 mortes na sede do jornal satirico Charlie Hebdo, inclusive do humorista Wolinski. E agora estou aqui pensando no que vou escrever sobre A Entrevista no Caderno 2 de amanhã. Nenhuma coisa parece ter conexão com a outras, mas, sim, está tudo linkado, nem que seja no meu imaginário. Havia lido o livro de Laura Hillenbrand, a autora de Seabiscuit. E, aliás, li por causa de Seabiscuit, imediatamente me dando conta de que dava filme e até pensando que Gary Ross poderia repetir o sucesso de seu filme sobre o cavalo com um problema na pata – um azarão – que consegue vencer os maiores prêmios do turfe nos EUA. Meu tio e padrinho, Alexandre Correa, era treinador de cavalos. Lembro-me de, na minha infância, em Porto, frequentar as cocheiras do que chamávamos de ‘prado’. O hipódromo ficava perto de casa. Morava no bairro Auxiliadora, o  hipódromo era no Moinhos de Vento, na área onde hoje se localiza o parque. Meu outro tio, Mário Oliveira, também era treinador. Circulava muito por ali, e gostava do cheiro. É incrível, mas basta evocar e, como uma madeleine, é todo um passado que volta. Gostei da história de Louie Zamperini, o invencível. Não cheguei a me surpreender, quando descobri que Angelina Jolie queria filmá-la. Lembro-me de ter lido, em passant, o olho ou o título de uma entrevista da mulher de Brad Pitt, dizendo que tem imenso prazer em dirigir e que nunca experimentou a mesma coisa ao atuar. Invencível é longo. Cobre uma vida inteira. O garoto rebelde e encrenqueiro, vergonha da família, redimido pelo amor do irmão, que vê nele qualidades das quais o próprio Louie duvida. O garoto vira campeão olímpico, sonha com o Japão. Vai para a guerra, seu avião sofre uma pane e cai, ele sobrevive no mar para ser recolhido pelos japoneses e enviado para um campo de prisioneiros. Cada uma dessas etapas dá um filme e não deixa de ser um filme, em si. De castigo, o menino Louie vê a mãe preparar a massa de inhoque e, depois, em alto-mar, ele mantém o amigo vivo despertando nele o desejo de comer a massa da mãe. No campo de prisioneiros, cria-se um conflito tipo Furyo – Em Nome da Honra. Um antagonismo entre Louie e o comandante do campo transforma o primeiro em saco de pancada do segundo, sofrendo todo tipo de abuso físico e moral. Quando a guerra termina, Louie vai ao quarto desfeito do antigo comandante. Encontra o cajado com o qual apanhou tanto, e uma foto. Um garoto ao lado do pai militar. Não é preciso mais nada. Está tudo dito sobre a vida familiar que forjou o militar durão. Dispenso a parte carola, mas ela é real. No mar revolto, Louie promete a Deus que, se viver, se colocará a seu serviço. Dispenso todo aquele letreiro final, que não me acrescenta à história que vi – das famílias e dos indivíduos. Mas o filme é belo, com um elenco fantástico. Estava viajando – Angelina reviu seus clássicos, ou eu reencontrei no filme dela obras que me marcaram. King Rat, de James Clavell, que Bryan Forbes transformou em filme – O Rei de Um Inferno -, Furyo, de Nagisa Oshima, e o que talvez seja o maior filme de guerra, o monumental Guerra e Humanidade, de Masaki Kobayashi. E aí veio o choque do ataque a Charlie Hebdo. Je suis Charlie. ‘Vingamos o profeta’, teria gritado um dos encapuzados, ao sair do local da carnificina. Estamos tão acostumados a defender a liberdade de expressão, pela qual lutamos, que não conseguimos aceitar o fanatismo político, religioso. Wolinski erotizou a política, politizou o sexo, e isso desde o mítico Maio de 68. O que ele desrespeitava não era Alá nem seu profeta, Maomé, mas o que grupos de radicais dizem e fazem invocando os nomes de ambos. Alá, o misericordioso, é maior do que os que matam em seu nome. É uma história sem fim de ódio. No dia anterior, havia visto a imagem da mulher-bomba entrando na delegacia, nem sei onde. Ela detonou a bomba, não sei quantos morreram. Me voltou a tragédia, o pathos de Paradise Now, de Hany Abu-Assad. O que se passa na cabeça dessas pessoas? Marina Le Pen vai ganhar mais adeptos para seu discurso xenófobos. E, a todas essas, A Entrevista. A CIA envolve James Franco e Seth Rogen, o apresentador e o produtor de um programa de entrevistas na TV norte-americana, num plano para matar o ditador norte-coreano, Kim Jong-un. A Entrevista é boçal, infantilóide, o que os norte-americanos chamam de bro-buddy movie, cheio de piadas infames sobre filmes e a região do baixo ventre. A soberba gringa pós George W. Bush e o 11 de Setembro. Os EUA tudo podem. E se o plano fosse para matar Barack Obama? A Entrevista é horrível, mas tem coisas muito/muito engraçadas. E é esperto de uma maneira torta, sobre como é idiota quando a cultura pop se imiscui na grande política. Seth Rogen, afinal, não é o Charles Chaplin de O Grande Ditador. Tudo isso está passando pela minha casbeça