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E a obra-prima de Ingrid Bergman é… Pia!

Luiz Carlos Merten

29 de dezembro de 2015 | 09h56

De volta a São Paulo. Acabou a folga da escala de fim de ano, que me levou a Montevidéu e a Porto Alegre para comemorar o Natal em família. Cheguei tarde, dez da noite, jantei com meu amigo Dib Carneiro e dormi o sono dos justos. Hoje pela manhã já caminhei. Daqui a pouco vou para o jornal. Integro a equipe que trabalha no Ano Novo. Não dei conta de que vi, na realidade revi, dois filmes em Porto. Eu Sou Ingrid Bergman, o documentário de Stig Bjorkman, e Star Wars Episódio VII, o reinício da saga, agora sob o comando de JJ Abrams. O 3-D do Espaço Itaú não funciona e Ademar Oliveira está obrigando a gauchada do Bourbon Country a ver a saga estrelar em 2-D. Foi bem interessante. A tela plana dá outro foco ao intimismo que está no centro do relato, em meio à parafernália de batalhas e efeitos. Havia sido acusado de spoiler – a revelação da identidade de Kylo Ren, e na revisão me surpreendeu como ela é feita rapidamente -, mas tenho de admitir, gostando do filme como gosto, que JJ já fez coisas melhores. Super 8, Super 8, Super 8. E Missão Impossível 3, com aquele desfecho eletrizante em Beijing. Episódio VII já sinaliza o futuro. No VIII, saberemos de quem Rey é filha (alguma dúvida?) e no IX teremos a batalha final, com a derrota do lado sombrio da Força (Supreme Leader Snorke e seus asseclas). As únicas coisas de que gostei mais, revendo O Despertar da Força, foram da garota, Daisy Ridley, e das cenas de Harrison Ford com Carrie Fisher. Gosto bastante do documentário sobre a Bergman, mas não me lembro se, em Cannes, já havia esse cartaz em que a estrela empunha a câmera. Ingrid Bergman in Her Own Words, Ingrid Bergman nas próprias palavras, recolhidas do diário e de cartas. Nas próprias imagens, também. Filha de um pai amoroso que morreu precocemente, ela herdou dele, que a fotografava – familiarizou com a câmera? -, o gosto pela documentação. Ingrid filmou e fotografou muito as coisas ao redor dela e transmitiu o gosto aos filhos. Eta família em que está todo mundo de câmera na mão. Isso despertou na Bergman um acentuado senso crítico. Achei muito interessante como, depois de seus anos na Itália – a aventura rosselliniana -, ela sentiu falta de voltar a Hollywood e a um cinema mais narrativo, de roteiro. Mesmo com risco de ‘causar’ – é minha sina -, chego aos 70 anos em dúvida se gosto mesmo de Roberto Rossellini. Não sou louco de não reconhecer sua importância e a dupla influência, como artista (sobre Godard, Bertolucci e Saraceni) e como homem (especialmente sobre Truffaut), mas tenho cá comigo que não sou tão apaixonado assim pela desdramatização do roteiro de Viaggio in Itália e que o ‘meu’ Rossellini é o De Crápula a Herói, em que Vittorio De Sica, em seu maior papel, vive um personagem fordiano – a grandeza dos derrotados. Sob certos, múltiplos?, aspectos, Ingrid foi uma mulher adiante do seu tempo, vivendo como homem. Privilegiava a carreira sobre a família, tinha amantes – o fotógrafo Robert Capa, o diretor Victor Fleming. Pergunto-me, o que o filme não responde, se a união estável com Rossellini, o casamento – por menos que tenha durado, meia-dúzia de anos -, não terá sido exigência dele, que era carolão. A Bergman teria sido capaz de viver com dois maridos (Rossellini e o dr. Lindstrom) sem se intimidar com o público e os produtores. Como ela dizia, a vida era dela e aos outros só devia interessar a atriz. Pelos padrões da época, ela foi uma mãe ausente, mas isso terminou sendo benéfico para todos. Os filhos cresceram, possuem vidas estruturadas, falam dela com carinho e admiração – e Pia virou uma coroa linda e classuda, a mais bela do grupo. O curioso é que Eu Sou Ingrid Bergman me deu vontade de rever velhos filmes dela – À Meia-Luz, Interlúdio, Europa 51, Viagem na Itália não, porque revi há pouco tempo. E o Bergman. A famosa cena da lição de piano rende uma parte muito interessante. O choque de Ingrid com Ingmar e a forma como o diretor a convenceu a fazer a cena como ele queria. Isabella Rossellini, que teve a ideia do documentário, diz coisas muito ricas sobre a parceria da mãe com Alfred Hitchcock e Jean Renoir – que teria sido, o segundo, o diretor que, no limite, despertou em Ingrid a reflexão sobre a dimensão política e social do cinema. Pode ter sido uma viagem minha, mas as cenas de Ingrid, amiga dos filhos adolescentes, dançando, me fizeram sentir dentro de um filme de Otto Preminger – Bom-Dia, Tristeza, adaptado de Françoise Sagan, a escritora mais nova onda de seu tempo. Adorei.