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E A Mulher do Padeiro, como é? Massa!

Luiz Carlos Merten

04 de julho de 2014 | 15h31

Orson Welles – ele! – disse certa vez que A Mulher do Padeiro é a prova de que uma história e um grande ator podem produzir o filme perfeito, mesmo que a direção e a montagem não sejam muito cinemáticas. Você tem agora a chance de conferir não se Welles tem razão, mas como ele tem razão. O novo pacote da Cult é um sonho de cinéfilos, e além de A Mulher do Padeiro, La Femme du Boulanger, traz também A Balada do Soldado, de Grigori Tchoukhrai. Devia ter 14/15 anos quando assisti ao filme do russo. Foi no mesmo ano em que estrearam em Porto Psicose, de Alfred Hitchcock, e A Doce Vida, de Federico Fellini. Não sei por quê, mas o primeiro filme que me veio – ia escrever ‘foi também o ano de…’ – foi Uma Vida em Pecado, Studs Lonigan, de Irving Lerner, que a Cult bem podia lançar – também. A Doce Vida ganhou a Palma de Ouro de 1960, o prêmio do júri foi para A Aventura, de Michelangelo Antonioni. Foi um grande ano para a Itália, mas o júri presidido por Georges Simenon resolveu outorgar um prêmio para a melhor representação nacional, e foi para… a URSS, por A Balada do Soldado e A Dama do Cachorrinho, que Yosif Krefitz adaptou de Chekhov (o pai do inspetor Clouseau sempre foi louco pelo autor de Tio Vânia). Já estive na redação do Estado pela manhã. Escrevi textos para o portal do Estado sobre Bonequinha de Luxo, de Blake Edwards, de volta ao cartaz – em versão restaurada -, e sobre o DVD de A Balada para o Caderno 2 de domingo. Não vou ficar me repetindo, mas juro que meu espanto de garoto pela cena inicial do filme de Tchoukhrai – Alyosha perseguido pelo tanque – renovou-se integralmente. Que que é aquilo? O movimento que Tchoukhrai e seus operadores fazem com aquela câmera não está no gibi. Mas eu volto a Marcel Pagnol e A Mulher do Padeiro. O boulanger não consegue fazer pão porque a mulher fugiu com outro. A comunidade, que não vive sem o pão de Raimu, se une para trazer Ginette Leclerc. Só isso, e não é preciso mais. Não preciso lembrar que Pagnol, o autor, nunca saiu de cena. O díptico de Yves Robert – A Glória de Meu Pai, O Castelo de Minha Mãe – é muito bom e eu me encanto com as tentativas de Daniel Auteuil, mesmo reconhecendo que os filmes dele são apenas simpáticos, com seu charme obsoleto. A Mulher do Padeiro não se  baseia em nenhum original do próprio Pagnol, mas em Jean Giono, Jean le Bleu (no sentido de ‘triste’). O filme que conquistou Orson Welles beneficia-se de uma das maiores interpretações masculinas do cinema. Se alguém procura um exemplo de interpretação tragicômica, a de Raimu permanece lá no alto. A Mulher do Padeiro é, como se diz, massa.

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