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E a caixinha de surpresas voltou a funcionar, a vitória de Olivia Colman no Oscar

Luiz Carlos Merten

25 de fevereiro de 2019 | 10h08

Tínhamos nesta madrugada um limite – 1h40 -, para que a cobertura do Oscar pudesse chegar ao tablet. Era a nossa prioridade, como a da Academia era encurtar a festa, que, no ano passado, bateu nas quatro horas e registrou a menor audiência desde que a cerimônia começou a ser televisionada. Há controvérsia. Ubiratan Brasil, que lá está – em Los Angeles -, muito provavelmente com base nos dados da Academia, citou o ano de 1953, mas John Harkness, em seu Academy Awards Handbook, diz que o Oscar, tal como o conhecemos, via TV, começou em 1952. Foi o ano em que O Maior Espetáculo da Terra venceu como melhor filme e John Ford levou seu quarto e último prêmio de direção, por Depois do Vendaval. John Wayne, que recebeu o prêmio de melhor ator por Gary Cooper (Matar ou Morrer), fez um discurso rumoroso, criticando seu agente por não lhe conseguir papéis assim tão bons (e ele estava no Ford!). Viajo na memorabilia, mas quero falar deste Oscar, o de número 91. O primeiro Oscar do resto de minha vida. Emocionei-me com Alfonso Cuarón e até confesso que chorei, quando ele recebeu sua segunda estatueta, a de melhor filme estrangeiro, por Roma. Cuarón falou tanto na importância ‘social’ de seu filme que, no México, virou peça de propaganda para o reconhecimento dos direitos das domésticas. Surpreendi-me, como todo mundo, com a derrota de Glenn Close, que parecia imbatível – todos os indicadores apontavam para ela -, por A Esposa. Não creio que Glenn fosse a melhor, muito menos que o filme seja bom. O francês Sr. e Sra. Adelman, com o qual se assemelha, é muito superior, mas também não sou fã da misantropia do grego Yorgos Lanthimos, de A Favorita. Venceu, de qualquer maneira, a melhor, Olivia Colman e ela, totalmente pega de surpresa, fez um discurso longo, sem nexo, dizendo coisas que, como flashes, lhe deviam vir à mente. Achei lindo o agradecimento ao marido – “Meu melhor amigo, ele vai chorar” – e quando já estava indo embora ela se virou para falar com Lady Gaga, que chorou, de novo. (Já havia chorado ao ganhar seu Oscar de canção, por Shallow.) Sonhos realizam-se. Come true. Desde que Maya Rudolph, após a homenagem ao Queen, disse o que já sabíamos – que não haveria âncora -, a política volta e meia deu o ar da graça naquele palco. Maya foi muito aplaudida ao dizer que o México não pagará pelo muro. Javier Bardem, apresentando com Angela Bassett o Oscar de filme estrangeiro – para Roma -, voltou ao tema do muro. “Não existem muros que confinem o talento.” Rami Malek, melhor ator por Bohemian Rhapsody, filho de um imigrante egípcio – a primeira geração de norte-americanos da família -, enfatizou o fato e o significado de estar naquele palco honrando um homem gay, Fredie Mercury. We’re the champions. Mas nada, nem as vitórias de afrodescedentes em anos anteriores, valeu tanto o black is beautiful no Oscar de 2019. Regina King, a melhor coadjuvante, por Se a Rua Beale Falasse, Mahershala Ali, o melhor coadjuvante, por Green Book – o Guia. Regina levou a mãe e lhe agradeceu – achei lindo quando Chris Evans, o Capitão América, pois era ele não?, a ajudou com o vestido -, Mahershala agradeceu à avó. Pantera Negra levou quatro estatuetas, e Spike Lee fez o maior carnaval – o primeiro Oscar a gente não esquece – pelo prêmio de roteiro adaptado, mas a entrada triunfal de Barbra Streisand, vindo apresentar Infiltrado na Klan, foi, para mim, o must da noite. Barbra contou que gostou tanto do filme que tuitou, para que as pessoas o vissem. Isso gerou um agradecimento de Spike Lee e o início de uma amizade sedimentada pela ligação de ambos com o Brooklyn. (Houve um detalhe que achei delicioso. Quando Barbra pisou no palco, apareceram as imagens de Melissa McCarthy e Richard E. Grant, sentados juntos, e indicados por Poderia Me Perdoar? No filme, Melissa tem uma fala ótima. Diz que duvida que Grant, o personagem, seja viado porque ele não sabe quem é Fanny Brice, que ela pretende biografar. Grant surtou e deu gritinhos quando Barbra entrou, provando que é, sim, do babado e Barbra foi Fanny Brice, ganhando o Oscar pela biopic de William Wyler, Uma Garota Genial, em 1968. Tudo se fecha, completa.) Depois do discurso de Barbra, eu teria votado no Spike Lee, sem sombra de dúvida. Ainda houve o Oscar principal, o de melhor filme, para Green Book, antecipado pelo prêmio do Producer’s Guild. Até gostei do filme de Peter Farrelly, mas nunca me pareceu o melhor e sempre teve toda aquela controvérsia – o ângulo do branco, etc. A apresentação do filme por um político negro ligado a Martin Luther King – e participante histórico da marcha de Selma -, foi tão verdadeira que legitimou a vitória de Green Book. No final, a cerimônia ultrapassou, por 20 e poucos minutos, o limite fixado de três horas. Chorei mais uma vez, pelos mortos do ano. Não deu para incluir Stanley Donen, mas lá estavam Nelson Pereira dos Santos, Bernardo Bertolucci, Vittorio Taviani e os mortos dos últimos dias, os atores Bruno Ganz e Albert Finney. Não me lembrava que Audrey Wells tinha morrido. Fui pesquisar. A diretora de Sob o Sol da Toscana morreu em 4 de outubro, aos 48 anos, e no dia seguinte estreou seu último crédito – corroteirista de O Ódio Que Você Semeia, do qual gostei. Muito! Foi uma noite cheia de emoções.

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