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E a Blanche, hein…?

Luiz Carlos Merten

10 Julho 2016 | 10h32

Havíamos comprado os ingressos para ver a Blanche de Antunes Filho logo que a nova temporada foi anunciada. Ia voltar ontem do Rio no início da noite, mas tive de antecipar porque Blanche era às 5 (da tarde). Corri feito um louco. Antes tivesse relaxado. Faz uns 20 anos que vejo regularmente teatro com meu amigo Dib Carneiro. O fato de ele ser dramaturgo e trabalhar com Gabriel Villela me permite acompanhar o processo criativo do grande diretor. Arrisco-me a escrever no blog sobre autores, diretores e montagens. Lá vou eu. Pela primeira vez na vida, ainda bem que havia intervalo. Saí no meio. Fugi, como quem se alforria. Ah, não foi a primeira vez, não. Há muito tempo, me arrastaram para uma stand-up, aquele povo ria enlouquecidamente, fui me irritando. Saí e esperei lá fora pelos amigos, até o fim do espetáculo. Odeio stand-up, sorry. Antunes propõe uma língua para reinventar o texto de Tennessee Williams, Um Bonde Chamado Desejo. Blanche é interpretada, em travesti, por um homem. Há muitos anos, Rubens Ewald Filho e eu estávamos no Japão, num evento, e resolvemos entrar no cinema para ver um thriller local – sem legendas, claro. Passamos o filme tentando decifrar os diálogos, mas eu gostei tanto que, ao regressar ao Brasil, fiz tanta campanha que o André Sturm, da Pandora, comprou os direitos de distribuição. Tenho de admitir que, com legenda, o filme não ficou tão interessante. Imagino que, se fosse assistir ao Bonde, no teatro, em russo ou grego, meu estranhamento não seria maior. Em outra língua, traduzido, o verbo seria mantido e a intensidade dos sentimentos seria transmitida pelos atores, se fossem bons. Quando garoto, em Porto, fizemos um teatrinho. E, para contar a história de um tal Patichuli, que tocava flauta de bambu, resolvemos falar chinês, ou o que pensávamos ser chinês. E a mocinha, a atriz dom Antunes, muito compenetrada, nos informou, no começo, de que deveríamos criar ‘nossa’ dramaturgia. Quer dizer que ‘eles’ ganham o patrocínio e eu tenho de fazer a dramaturgia, para não ser alienado? Então tá. O fonemol, a tal língua, pelo que entendi, emana imagens do inconsciente. Emana mesmo – lembrei-me muito da minha brincadeira infantil ao assistir à do Antunes. Os atores cacarejam aquela língua bizarra. Me deu a impressão de que ele aumentou o texto. O cacarejar era interminável e a mim, pelo menos, não motivou. E ainda teve o figurino da Blanche, com as luvinhas e o chapéu. Aquilo me derrubou de vez. Tirou todo o mistério da personagem. Blanche virou alguma velha coroca ou professorinha de Hollywood, nos anos 1940. Pior – Jo Van Fleet em Vidas Amargas, de Elia Kazan (mas o texto dela era bom, baseado em John Steinbeck). Com o rosto clownesco, maquiado de branco, Blanche virou a reencarnação de Marcel Marceau num improvável encontro do mímico com Kazuo Ohno. Se pelo menos Antunes tivesse feito a sua Blanche silenciosa, acho que aí me teria sentido mais estimulado. Um momento de silêncio, maestro! Respeito muito os autores. Com Antunes, tenho uma relação visceral de amor e ódio. Gosto muito de algumas coisas dele, e nada de outras. Aquelas vitrines de vidro de Mahabarata até hoje atormentam minha lembrança. Em compensação, amei a Medeia, o Veredas da Salvação e fui um empedernido defensor de Policarpo Quaresma. Sempre achei que o mistério de Blanche resistiria a tudo. Estava enganado. No desespero, arrastei o Dib para o Frei Caneca para ver o Almodóvar. Ele gostou de Julieta. Eu, que já tinha gostado (muito) do filme em Cannes, passei para outra dimensão. Vou triver para conferir se não foi uma reação exagerada a Blanche.