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Dura na queda

Luiz Carlos Merten

16 de dezembro de 2013 | 12h25

Em linguagem jornalística costuma-se dizer que os grandes nunca vão sozinhos. Ontem, cheguei a pensar, enquanto redigia os necrológios de Peter O’Toole para o jornal (e o blog) –  quem vai com ele? Joan Fontaine. Joan quem? Seu nome deve parecer estranho para o público mais jovem, mas Joan, que morreu em casa, nesta madrugada, na Califórnia, quase centenária – nasceu em 1917, tinha 96 anos -, foi estrela nos anos 1930 e 40. Ela nasceu em Tóquio, numa família de diplomatas. Descoberta por um caçador de talentos numa escola de arte dramática da Califórnia, fez três filmes com George Stevens, incluindo Rua da Vaidade e o clássico de aventuras Gunga Din, e As Mulheres, de George Cukor. Era um belo currículo nos anos 1930, mas o problema de Joan, e era um problemão, era sua irmã, Olivia De Havilland, que havia virado estrela antes que ela, em dupla com Errol Flynn ou fazendo a Melanie de …E o Vento Levou. E aí ocorreu o improvável – Alfred Hitchcock, consagrado na Inglaterra, foi filmar em Hollywood. Precisava de uma loira delicada e fria. Foi a chance de Joan. Fizeram Rebecca, a Mulher Inesquecível, que ganhou o Oscar de melhor filme de 1940, e Suspeita, que deu a Joan o Oscar de melhor atriz de 1941. Conta a lenda que, se já havia uma rivalidade entre as irmãs, virou ódio. Olivia não sossegou enquanto não foi premiada pela Academia, e foi não uma, mas duas vezes seguidas, em 1948 e 49, por Na Cova das Serpentes, de Anatole Litvak, e Tarde Demais, de William Wyler. Joan, enquanto isso, filmava com um monte de bons diretores – Edmond Goulding, Robert Stevenson (uma Jane Eyre com Orson Welles), Sam Wood, Mitchell Leisen, William Dieterle, Nicholas Ray, Fritz Lang (Beyond a Reasonable Doubt/Suplício de Uma Alma). Não se podia dizer que, com toda a sua classe, Joan Fontaine fosse uma grande atriz, mas o gelo cabia bem nas malvadas que interpretava – o filme de Ray chamava-se justamente Born To Be Bad, Nascida para Ser Má (no Brasil foi Alma sem Pudor). Mas de todos os seus papeis, o meu preferido é num cult de 1948 – A Carta de Uma Desconhecida, de Max Ophuls. Joan faz a quintessência da heroína romântica, capaz de se sacrificar por amor. E é inesquecível. Ela acabou com o cinema nos anos 1960 e, ocasionalmente, seguiu fazendo teatro e alguma TV (chegou a ganhar um Emmy). Só que, ao invés de se aposentar, resolveu virar investidora. Investiu em fazendas de gado e frutas cítricas, em petróleo e imóveis. Ganhou tanto dinheiro que virou presidente de uma corporação (não lembro o nome) formada na California para gerir seus negócios. Rica, livre e dotada de saúde de ferro, tirou brevê de piloto, fez balonismo. Diversificando sempre, e cada vez mais, foi decoradora de interiores, participou de competições de pesca e ainda foi cordon bleu em gastronomia. Acho que foi em 1978 ou 79 que escreveu sua autobiografia, No Bed of Roses. Sua vida pode não ter sido uma cama de rosas. Tudo o que conseguiu pode ter sido com dificuldade, como sugeria, mas a adversidade nunca paralisou Joan Fontaine. Peter O’Toole fazia o gênero atormentado, ambivalente. Joan Fontaine, a despeito de sua aparência, era durona. Deve estar abrindo caminho na marra para os dois no paraiso.

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