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Dosar o circo, eis a questão

Luiz Carlos Merten

16 de novembro de 2015 | 09h51

Saí ontem da redação do Estado no limite do fechamento – 9 da noite, 21 horas. Tinha um monte de matérias, alguns percalços no meio do caminho. Saí e fui para a Piola dos Jardins, a pizzaria, comemorar com meu amigo Dib Carneiro e a direção e o elenco de Pulsões o fim da temporada da peça em São Paulo. Comemorar não era bem o termo, porque estavam todos muito emocionados, até chorosos. Sou suspeito, reconheço – são todos meus amigos queridos -, mas Pulsões era, é, realmente um espetáculo muito bonito. Um texto forte sobre amor e loucura, uma direção (de Kika Freire) que poderia ter acentuado o horror, uma mãe obcecada pela perfeição que mata o filho bebê porque ele é imperfeito, mas que foi pela via da poesia, e os atores maravilhosos, Cadu Fávero e Fernanda de Freitas. Vivo dizendo, meio brincando, mas muito sério, que Gabriel Villela tem de integrar o Cadu ao ‘nosso’ coletivo. O cara é f… Fernanda não foi à Piola. Terminou a peça e correu para o aeroporto, porque gravava hoje cedo no Rio e a Globo não lhe deu colher. Belo como é Pulsões, não foi um grande sucesso, porque é drama, e pesado, e o público quer ver comédia – ou Shakespeare. Falei num post anterior que tenho visto algumas peças interessantes. Nem sabia da existência do livro Suicidas, de Raphael Montes, mas ele virou objeto de um culto. Um grupo de jovens que se isola num porão para fazer roleta russa. Morrem um, dois, três. Instala-se o mal-estar. Um cara é acusado de manipular o grupo e até a arma. Lá pelas tantas, o enredo vira Agatha Christie. Whodunit, quem matou? Achei o elenco bom, alguns mais bons, é verdade, mas meu amigo César Baptista, que dirige, vai me desculpar. Não sei de que outra maneira o espetáculo poderia ser dirigido, mas me pareceu histérico demais para o meu gosto e a parte final, à Agatha, exagera no clima para criar suspense. Mas vou terminar fazendo um elogio. Com todos seus excessos, Roleta Russa é a peça que Quentin Tarantino dirigiria. Quentin, que vem ao Brasil ainda este mês, ou seu clone, Guy Ritchie. Outra peça que vi, no sábado, foi Hysterica Passio, texto da espanhola Angelica Liddell, com Alessandro Hernandez e Amália Pereira. Gostei mais dos atores que da montagem, por mais interessante que seja a juistificativa do diretor Reginaldo Nascimento no programa. Hysterica é sobre garoto abusado pelos pais e que cresce para tentar se vingar dos maus tratos. Há alguma coisa da loucura de Pulsões, mas em outro sentido, ou dimensão, e a encenação transita ‘por expedientes cênicos do pós-dramático’, incorporando alegoria, artes plásticas, sons e sombras. Achei curioso, mas tem momentos em que a dor do texto fala mais alto e eu gostaria de um pouco menos de artifício para poder ouvir/sentir as palavras. Dosar o circo, eis a questão.

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