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Dos clássicos às novelas, a vida é um pandeiro

Luiz Carlos Merten

09 de julho de 2020 | 11h21

Ontem, quarta, passei o dia me sentindo um personagem de Aki Kaurismaki. Homem sem passado. Meu note, que é um modelo antigo, mas eu não me adapto aos teclados dos novos – tenho outro, que não uso -, parece o computador de 2001. Adquiriu vontade própria. Fica lento, trava, fecha. Cada dia é uma aventura. Tenho perdido coisas, porque, além de tudfo, tenho a mania de fazer textos intermináveis, de até 10 mil caracteres, sem salvar. Foi assim, que perdi o texto de El Chacal de Nahueltoro, e tive de recomeçar. Estava com cerca de 8 mil e-mails na minha caixa, a maioria confesso que não lidos, mas alguns mais antigos que ainda guardava. Na terça à noite, durante a físio, pedi ao Carlos que limpasse minha caixa. Deletar todos os e-mails? Tudo! Estou zerado com meu passado, espero. O pior é que, ontem mesmo, precisava de e-mails com informações, links – que agora estou tendo de ver; vejo, mas não sei como as pessoas se adaptam; não tem fruição, vira só informação. Vejo por causa de entrevistas, como uma que fiz com Thorbjorn Harr, o astro norueguês da nova série Kieler Street, da Film and Arts. Coloquei um nome de assessoria e a memória do notebook me ofereceu várias opções, mas não a que queria, ou talvez não fosse aquele nome. Gostei de falar com o ‘Thor’, ele mesmo fazendo divertidas analogias de seu nome com o deus nórdico do trovão e o super-herói do martelo, da Marvel. Sem passado – começar de novo, e contar comigo, vai valer a pena ter amanhecido, ter me rebelado, ter me debatido. Na terça à noite, fiz uma lista de possíveis filmes para a série dos Clássicos. Enumerei dez, mas vejam como são as coisas. Na confusão que virou minha mesa da sala, onde trabalho, cheia de livros e revistas, ao procurar uma coisa na quarta de manhã – ontem – dei de cara com aquele livro de Don Graham que comprei em Berlim, em fevereiro. Giant, and The Making of a Legendary American Film. Jimmy Dean. Mas ao olhar a imagem dele no carro, com Reata ao fundo, o que me veio foi outra imagem icônica. O rifle atravessado nos ombros. Numa associação rapidíssima, como um flash, revi o Martin Sheen na mesma posição. Kit em Bandlands/Terra de Ninguém, o primeiro Terrence Malick. Kit e Holly, Sissy Spacek, dançando no meio da estrada. Num impulso, antes mesmo de pedir o café da padaria, já estava escrevendo. Meus dias têm sido assim. Já contei que, até como forma de manter a sanidade, e tem dado certo, me impus uma rígida disciplina. Acordo, trabalho – nos Clássicos ou no material do dia para o jornal -, almoço e sigo a programação. Tentei ver as novelas, que criam o hábito, uma depois da outra, mas a ‘maldade’ das personagens, que faz avançar as tramas, é toda construída à base de clichês, e é muito chata. Parei com a tal Tereza Cristina e sua biba de estimação, mas sou capaz de apostar, posto que boa parte de seus crimes ocorre naquela escada, que Aguinaldo Silva não vai resistir e reproduzirá o final de Norma Desmond, quando a louca for internada. Mas o pior é uma coisa que não sei se acontece só comigo. Vários atores, não os protagonistas, estão se cruzando nas diferentes tramas. Vivianne Pasmanter faz a podre Germana, que fornece o alívio cômico em Novo Mundo, e na sequência é a chique Lili, que pega o ex-genro, num imbróglio digno de Nelson Rodrigues, em Totalmente Demais. A doméstica boazinha da novela de Rosane Svartman e Paulo Halm vira a freguesa atirada da pastelaria do Aguinaldo. Inversamente, o português que é uma santa criatura em Fina Estampa vira o escroto padrasto da Elisa, e por aí vai. Tem horas que olho para um e vejo outro, numa desconstrução hilária digna de Mel Brooks. Life stinks. Outro dia, Lili, no maior clima, fechou os olhos para beijar seu boy e me veio a Germana, com aquela boca de pavor, como diria o Chico, correndo atrás do auxiliar de cozinha. Socorro! Novelas podem ser fenômenos culturais nesse País que virou a Casa da Mãe Joana, mas são um saco.