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Donde estás ahora, cuñatay? (Sobre Las Herederas)

Luiz Carlos Merten

02 Setembro 2018 | 10h46

Vivi ontem um sábado mais equilibrado entre cinema e teatro. A tarde fui ver Las Herederas, o longa do paraguaio Marcelo Martinessi que venceu Berlim, em fevereiro, e pela primeira vez em 20 anos eu não estava lá. À noite, fui ver a nova montagem de A Dona da História, com Angela Dippe e Luana Martau, da qual gostei muito. Hoje me programei para ver a seleção de curtas brasileiros no festival da Zita Carvalhosa, e vou ter de correr para emendar com Hotel Tennessee. Se der, ainda quero ver A Freira, cujo trailer me pareceu sinistro. Vamos por partes. Gostei de As Herdeiras, mas confesso que o filme me produziu uma depressão violenta. Saí do Reserva (Cultural) me sentindo meio alma penada, e mais do que com a personagem de Chela isso talvez tenha a ver com a trilha. De início, uma observação. Já estamos acostumados a ver nos créditos de filmes autorais, brasileiros e/ou estrangeiros, uma enxurrada de apoios, inclusive de laboratórios de roteiros. O de As Herdeiras deve ser campeão, deve ter passado por uns dez laboratórios. Jesus! Tenho um interesse muito grande pelo cinema paraguaio, desde que vi e tentei premiar em Cannes Hamaca Paraguaya, mas quem diz que os Irmãos Dardenne tinham sensibilidade para o cinema latino? Necas. Nem Paz Encina nem o catalão Albert Serra, Honor de Cavalleria. O olhar deles era para o realismo social europeu, e fora daquilo não enxergavam nada. As Herdeiras começa com uma casa sendo dilapidada. Chela e Chiqui são companheiras, um par de lésbicas de meia idade. Chiqui, acusada de fraude pelo banco vai presa e Chela, que sempre foi dependente, pela primeira vez se vê sozinha. Num certo sentido, já vimos esse filme. A transformação de Chela, que vira motorista de amigas pertencentes à elite decadente, mas que ainda estão melhores que ela, em termos de dinheiro. E Chela (re)descobre sua sensualidade, mais que sexualidade, com Angie, que se define como hetero mas curte um velcro – não acredito que escrevi isso. Enfim, o filme é bom, as atrizes, ótimas, mas o que mexeu comigo foi a trilha. Tchaikovski, 1812, a Ouverture. E Recuerdos de Ypacarai. É incrível, mas guarânias e boleros paraguaios sempre fizeram parte da minha infância. Tinha um cunhado que adorava Gregorio Barrios, havia Lucho Gatica e o Trio los Panchos, e tudo isso fez parte da minha formação. Só bem mais tarde Caetano reinventou Ypacarai… Una noche tibia nos conocimos/junto al lago azul… Donde estás ahora, cuñatay, que tu suave encanto no llega a mí… Fiquei pensando? O filme é sobre o quê? Sobre essa cuñatay, Chela, perdida no tempo? O cinema, a lanterna mágica de Ingmar Bergman, é uma coisa maravilhosa. Agrega lembranças, experiências. Um filme pode ser estopim para lembranças que você poderia até pensar que estivessem…. Mortas? Sempre há fogo sob as cinzas.