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Dona Helena, a que sempre surpreende

Luiz Carlos Merten

29 Janeiro 2015 | 11h05

TIRADENTES – Até ontem, não fiquei muito motivado pelos primeiros programas da Aurora deste ano. Tinha grande expectativa pelo longa do segundo dia, Teobaldo Morto, Romeu Exilado, de Rodrigo de Oliveira, até pelo título, que ficava revirando na minha cabeça, sugerindo diálogo entre cinema e teatro. Se há diálogo no filme é entre cinema e mitologia, mas não creio que, apesar de momentos isolados de grande força – uma briga de socos numa paisagem ampla, e áspera -, exista ali dentro uma unidade, ou mesmo grande reflexão sobre a paternidade, como pretendia o diretor. O debate mais confundiu que esclareceu, e do debatedor ao público me deu a impressão de que todo mundo ia tentando comer pelas bordas, na tentativa de um click, uma conexão, que não houve, porque a dramaturgia do filme não favorece a adesão. Levantei algumas questões relativas ao mito (a esfinge, o centauro), mas não creio que tenha entendido a temporalidade da narrativa, que me pareceu um tanto aleatória, com um arqueiro que pode ser filho (que ainda não nasceu) e dispara no pai, que também tem uma cena de (homos)sexo, mas os dois caras podem ser o mesmo. Deu pra entender? Não me convenceu. Ontem, porém, as coisas começaram a melhorar. Achei bem interessante o filme do Maranhão, O Signo das Tetas, de Frederico Machado, mas ouvi de fontes confiáveis que perdi o melhor filme até agora, e que não está na Aurora, Brasil S/A, de Marcelo Pedroso. Na Mostra Dissonâncias, de curtas, adorei Ossos, de Helena Ignez. Eta, mulher libertária. Fiz uma vez uma matéria com ela no Estado. Dona Helena e Seus Dois Maridos. Ter sido casada com Glauber Rocha e Rogério Sganzerla, duas lideranças de movimentos que se provocavam/contestavam no cinema brasileiro, o Cinema Novo e o Marginal (tipo pai e filho, como escreve João Carlos Rodrigues em seu livro lançado aqui), não apenas abriu como escancarou a cabeça dela. Helena é inteligente, não raro brilhante.E sempre termina por me surpreender.