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Don Coscarelli e a noite macabra do seu cultuado Fantasma

Luiz Carlos Merten

20 de janeiro de 2019 | 12h03

George A. Romero morreu em julho de 2017, Tobe Hooper em agosto do mesmo ano. Não me lembrava da proximidade das datas. Cahiers du Cinéma juntou-os num único e grande necrológio. Parece exagerado – Romero criou uma série que, a partir de A Noite dos Mortos Vivos, de 1968, levou-o a revisitar regularmente o tema, tecendo metáforas sobre a ‘América’ a cada dez anos, aproximadamente. Hooper é homem de um só grande filme – o violento e górico O Massacre da Serra Elétrica, de 1974, que o transformou, segundo Jean Tulard no Dicionário de Cinema, no mestre do terror sanguinário. Romero, Hooper, John Carpenter, com todas as suas diferenças e a irregularidade de suas carreiras, compõem uma santísasima trindade do cinema de gênero. Cahiers (outubro de 2017) cita a emoção de Hooper, os punhos crispados, as lágrimas rolando pela face, quando recebeu a standing ovation para a versão restaurada do Massacre a la Tronçonneuse/The Texas Chainhsaw Massacre, em Cannes, 2014. Menino(a)s, eu sei, eu vi, eu estava lá. Cahiers não cita, mas eu também estava lá – teria de pesquisar a data -, quando Romero participou do tradicional encontro que a Fnac organiza todos os anos, durante o Festival de Cannes, em sua sede da Rue d’Antibes, com um diretor importante. Essa ausência de preconceito talvez seja a única coisa que me interessa em Cahiers. Virei um colecionador compulsivo e tenho todos os números dos últimos 40 e tantos anos, desde que passei a comprar a revista nas bancas, ainda em Porto Alegre. Quando a revista sumiu do Brasil, passei a usar a ida a Paris, antes ou depois de Cannes, para comprar as edições que faltavam. Não sei mais onde colocar tantas revistas. Isso é coisa de velho, esse contato físico com o material, o papel. Os jovens preferem as versões online. Tudo está na nuvem. Na edição de setembro de 2017, Cahiers usa o lançamento em DVD e Blu-ray para resgatar Phantasm, de Don Coscarelli, de 1979. Fantasma! Na TV, o filme costumava passar na madrugada da Globo como Noite Macabra. Don Coscarelli, nascido na Líbia e criado na Califórnia, é objeto de um culto fervoroso. Talvez sejamos poucos, menos que os admiradores de Carpenter, Hooper e Romero, mas o grão sacerdote do culto é JJ Abrams, que pagou a restauração de Fantasma. Um garoto obcecado pela perda do irmão mais velho, seu farol. Mórbido, ele frequenta o cemitério. E vê, horrorizado, quando o coveiro desenterra um caixão e o leva para um lugar sinistro. Com um amigo, ele investiga. Bizarro. Coscarelli fez seu filme a troco de nada. O neo-realismo dos mortos-vivos de Romero é luxo perto da pobreza dele. Mas Coscarelli compensa a falta de dinheiro com criatividade. O homem alto é o vilão dessa história, e ele ainda fica mais alto enquadrado em contraplongê com seu séquito de anões, na verdade crianças que Coscarelli filma meio encobertas por capuzes, para torná-las mais misteriosas. A própria morgue infernal fica mais assustadora porque é protegida por esferas voadoras que decepam intrusos com lâminas ocultas. Como não tinha verba para efeitos – alugava a câmera na sexta, para poder ficar com ela no sábado e domingo -, o diretor criou um complexo sistema de fios de nylon (invisíveis?) para sustentar suas bolas mortais no ar. Coscarelli filmou duas ou três sequências – três, a última em 90 e tantos. Deveria fazer mais um Fantasma nos anos 2010, mas a produção não saiu. Era interessante ver os atores envelhecendo, e ainda assustados, ou assustadores. Há toda uma história oculta do cinema, sobre a qual é preciso lançar luz.