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Dominique Moïse, por Daniel Augusto

Luiz Carlos Merten

19 de abril de 2020 | 10h50

Não sei se fui um defensor solitário de Não Pare na Pista, mas gostei da cinebiografia de Paulo Coelho por Daniel Augusto. A cena em que Júlio Andrade, como o parceiro de Raul Seixas, enfrenta seu torturador, durante a ditadura militar – está bem, cívico-militar -, mexeu muito comigo. Jotabê Medeiros remexeu em algumas feridas dessa relação no seu livro sobre Raul. Não creio que tenha alguma vez conversado com ele sobre o filme – talvez tenha suas reservas -, tudo bem. Nenhuma biografia, por terceiros, consegue dar conta de uma vida. É sempre um recorte, um olhar. E o filme foi decisivo na escalada para que Júlio recebesse reconhecimento como o extraordinário ator que é. Nesse caso específico, seu irmão, Ravel Andrade, que fazia o Paulo mais jovem, também foi beneficiado. Por que estou lembrando isso? Graças à Dóris, minha ex, que me exortou a ver os canais Arte e Curta! nesses tempos de pandemia, tenho me ligado principalmente na programação do segundo. Não Pare na Pista é de 2014, no ano passado Daniel lançou Albatroz, do qual, confesso, não gostei. Mas, agora, no Curta!, acabo de ver o documentário com a entrevista que ele fez, em 2012, com o cientista político francês Dominique Moïse. Há apenas oito anos ainda vivíamos em outro mundo, mas Moïse já apontava a fratura. A crise da Europa, do euro. Sua análise privilegia as tensões entre a Alemanha e a França e antecipa o Brexit, a saída da Grã-Bretanha do bloco. Mais que isso, sinaliza para um fenômeno mundial. Em 1981, quando o socialista François Mitterand chegou ao poder, na França, havia um movimento pró-esquerda que identificava o perigo na direita. Pouco mais de 30 anos depois, a direita já não dava medo e a margem de manobra de François Hollande, que vencera a eleição na França, era muito mais reduzida. No Brasil de Dilma Roussef, que sucedera Lula, mas sem se referir a ela, ele identifica os dois problemas que permanecem – desigualdade social e estado de Direito frágil, o que explica tudo o que ocorreu no processo de impeachment e a consequente eleição de Jair Bolsonaro. Não creio que o filme sobre Dominique Moïse seja grande cinema – uma câmera, uma cabeça pensante, mas que cabeça! Gostei de ter visto. O Curta! tem sido de grande consolo para mim. Agora mesmo, minha TV está ligada e uma mulher, jovem, bela, está fazendo uma análise muito interessante sobre música e mercado. Os shows pararam em tempos de isolamento social porque, basicamente, promovem o aglomerado de pessoas. Mas os shows não pararam de verdade e os artistas estão buscando – conta ela – novas formas de chegar ao público. A analista, inteligente – não apareceu seu nome de novo, para que eu possa identificá-la, sorry -, com certeza foi ouvida antes do grande espetáculo virtual orquestrado ontem por Lady Gaga. Falava ontem pelo telefone com minha filha, e a Lúcia estava ligada na transmissão. O mercado de música muito provavelmente mudará depois da pandemia. Estou louco para voltar a uma sala de cinema, mas não duvido que o mercado do audiovisual também não será mais o mesmo. Pensar é um alento. É o que podemos fazer nesses tempos de irracionalidade – do presidente e seus apoiadores, que ontem tomaram a Paulista e ainda somam mais de 30%.

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