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Domingos Oliveira, o homem que soube amar

Luiz Carlos Merten

24 de março de 2019 | 23h22

Fui ver ontem à tarde o Suspiria de Luca Guadagnino. Fomos – Orlando Margarido e eu. A sessão, anunciada para as 4, ia começar às 5, o filme é longo – quase uma hora a mais que o original de Dario Argento – e Orlando desistiu, com medo de chegar atrasado no próprio aniversário, no Duas Teresas. Lá estavam Emilia Santiago, o codiretor de Torquato Neto – Todas as Horas do Fim, Marcus Fernando, e Elaine Guerini recém agora chegada de Berlim. Ah, o amor… Boa comida, boa bebida, boa conversa. Foi lá que soube da morte de Domingos Oliveira. Hoje à tarde, estava na redação e Ubiratan Brasil me ligou. Embora o C2 já tivesse dado conta da morte na edição desse domingo, Bira me pediu para escrever algo pessoal. Sai amanhã. Domingos vinha resistindo à doença. Escrevia, dirigia, atuava, mas às vezes era meio enervante tentar entender o que dizia. Morreu como imagino que gostaria, e como eu também quero – trabalhando. No sábado pela manhã, estava no computador, sentiu-se mal. Uma ambulância foi chamada, não adiantou. Tinha 82 anos, um pouco mais velho que Glauber, que teria feito 80 anos nesta semana. Glauber e o Cinema Novo instituíram uma agenda política para o cinema brasileiro. Estética da fome. E veio Domingos, o alienado, para falar de amor. Paulo ama Maria Alice – como não amar, em 1967, Leila Diniz? A foto de Mário Carneiro, a trilha de Gabriel Fauré, Todas as Mulheres do Mundo. Leila olhando para a câmera, Leila rindo, Leila chorando. Com naturalidade, escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade, Leila libertou as mulheres brasileiras do jugo de sua escravidão. Na sequência vieram Edu, Coração de Ouro, As Duas Moedas do Amor, A Culpa, talvez seu filme mais pesado, É Simonal. Com exceção do último, Domingos fazia lembrar aos críticos François Truffaut, o romântico que desconfiava do romantismo. E aí, entre 1978 e 97, quasse 20 anos, houve um hiato. Domingos foi fazer televisão, teatro. Voltou com Amores, ao qual se se seguiram Separações, Feminices, Carreiras, etc etc. Domingos, como escritor e cineasta, foi comparado a Woody Allen. Todo ano, a cada dois anos, lá vinha ele com um filme barato, interpretado pelos amigos do teatro e do cinema. Domingos repetia-se? Um pouco. E começou a me irritar, porque parecia querer estender o seu método para todo o cinema brasileiro. Um dia, fui entrevistá-lo em sua casa, no Rio, e ele me disse que achava que eu não gostava dele. Reconciliamo-nos e aí vieram O Primeiro Dia de Um Ano Qualquer, Infância, Barata Ribeiro 716. Um Domingos bergmaniano? Não, porque Domingos foi sempre ele, leve até quando era profundo, apaixonado pelas mulheres, pelos amigos, pelo cinema. Ainda não vi seu último filme, Os Oito Magníficos, com/sobre os atores que formavam sua ‘companhia’. Nunca mais Domingos Oliveira, nunca mais os filmes de Domingos Oliveira. Mas sempre terei/teremos Todas as Mulheres do Mundo. Não é pouca coisa.