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Domingo para recordar

Luiz Carlos Merten

11 de agosto de 2013 | 10h26

GRAMADO – No espírito do que disse o próprio Wagner – que, às vezes, tem vontade de bater em certos caras, por serem tão jovens e talentosos -, gostaria de tê-lo esmurrado ontem no Palácio do Festival, quando ele recebeu o Prêmio Cidade de Gramado. De novo, no palco, o menino. Alegre, orgulhoso por fazer sua mãe, que o acompanhou na cerimônia feliz. Mas grave, a ponto de haver dito coisas transcendentes. Wagner lembrou de novo que, em 15 ou 16 anos de carreira – mas ele detesta a palavra -, nunca esteve aqui, com nenhum de seus filmes, e muitos deles são obras viscerais, desde o início da chamada ‘Retomada’. Veio pela primeira vez para ser homenageado, uau. Mas o prêmio ele o transformou num reconhecimento aos atores de sua geração, os camaradas da Bahia. Lázaro Ramos, Vladimir Brichta, que estará na sexta na cidade com A Coleção Invisível, de Bernard Attal, que participa da  competição. E acrescentou que os amigos são essenciais. São os que podem criticar, sacudir a gente. Como Lázaro. Wagner um, dia, no começo de sua brilhante trajetória, foi desabafar com ele, dizendo que só o chamavam para fazer nordestino. Lázaro retrucou – ‘Se liga, cara. Também só me chamam para fazer negro.’ Eu ri, como todo mundo, e ao mesmo tempo fiquei arrasado. Lázaro nem deve se lembrar, pois é sempre tão carinhoso comigo, mas há muitos anos, quando o entrevistei acho que pela primeira ou segunda vez, perguntei o que ele gostaria de fazer. Hamlet! Hamlet?, espantei-me. Por que, você acha que não posso? Fiquei mortificado por, inconscientemente que fosse, estar reproduzindo um pensamento discriminatório e racista. Lázaro de alguma forma já fez seu Hamlet, seu ser ou não ser, mesmo não reproduzindo a frase famosa – que Wagner disse na montagem de Aderbal Freire-Filho. Deixo em aberto para vocês qual pode ter sido o Hamlet de Lázaro e, de qualquer maneira, foi um filme que mostrou o quão brilhante ator ele é. Mas ainda não cheguei ao ponto. Wagner disse, e concordo com ele, que um festival como Gramado não é um foro só para se discutir cinema. Hoje é Dia dos Pais. Ele voltou cedo para o Rio para almoçar com seus filhos. Gostaria de almoçar também com, seu pai, mas ele morreu em 2011. Wagner sabe por que não estará almoçando com seu pai neste domingo, mas dedicou o prêmio aos filhos de Amarildo, o trabalhador que foi abordado por PMs, no Rio, e sumiu. Os filhos de Amarildo não sabem por que não poderão almoçar hoje com seu pai. A sociedade, nós, lhes devemos uma explicação. Pqp Wagner. Me emocionei demais. E queria te bater, amigo.

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