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Domingo de porrada e afeto

Luiz Carlos Merten

08 de abril de 2019 | 10h05

Vivi ontem um dia de cão. Amigos que sabem que não estou nas redes sociais inundaram minha caixa de e-mails com cópias do texto de Leticia Sabatella acabando comigo no Facebook e um anexou o comentário de Jorge Furtado, que foi a pá de cal. Foi – não, é – desagradável, mas não pretendo polemizar, o que só nos levaria, quem sabe, a um acirramento de ânimos. Se eu escrevi que Letícia conseguiu manter a serenidade ao ser chamada de p… do PT nas ruas de Curitiba, vou tentar agir como ela. Essa cultura do ódio vigente nas redes sociais não me pega. É verdade que ajudou a me acalmar, vejam só, o fato de ontem, no fim da tarde, ter ido à pré-estreia, numa sessão fechada para convidados, de A Chave do Vale Encantado. Fui convidado pela assessoria de Oswaldo Montenegro, que está longe de ser uma unanimidade musical – uma unanimidade tout court, afinal, posicionou-se contra os malucos que defendiam a volta dos milicos -, mas como cineasta me parece bem interessante. Não falei com ele no fim da sessão, mas pesquisei e vi que Vale Encantado foi primeiro livro, para o qual ele compôs uma trilha com canções, transformou em infantil de teatro e agora, muito tempo depois, em filme. Montenegro muito provavelmente vai tomar porrada porque sua representação do imaginário infantil privilegia personagens que a Disney assimilou e impôs de relatos europeus – Branca de Neve, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho, Robin e Marian, Papai Noel, etc -, nenhum Saci Pererê ou qualquer outra figura surgida do inconsciente coletivo nacional. Talvez estivesse aflito – aflitivo, xarope são definições que algumas pessoas colam em Montenegro -, mas a apresentação que ele fez antes da sessão de alguma forma me caiu como um bálsamo. Aos 70 e não sei quantos anos, ele desistiu de ter razão para não ser vítima das polarizações nas redes que a nova família real entronizada em Brasília (papai e seus meninos) sabe explorar tão bem, e investe numa política de dar e receber afeto. Pode ser utópico, e é, mas Montenegro citou um mentor que um dia gostaria que o Brasil reconhecesse como filósofo, Domingos Oliveira, e ele não disse mas eu acrescento que o problema é que o o país, com minúscula, prefere, como seu filósofo de plantão, o o.c., fazer o quê. Como diretor/autor, Montenegro é metalinguístico. Gosta de revelar seu processo, os bastidores, basta lembrar de Léo e Bia. Na fantasia que teceu, os personagens ‘clássicos’ vivem no sonho das crianças (e se misturam, amam, brigam, têm inveja – serão humanos?). Sua ideia é mostrar o choque que seu príncipe e suas princesas experimentam ao ingressar na realidade. Não fiquei muito seguro do desfecho, mas não vou falar agora para evitar spoiler. E o filme, de qualquer maneira, me pareceu criativo. Era o que precisava. Havia escrito um extenso post antes de dormir. Acordei de madrugada, e deletei. Nesse mundo das redes, pode ser que alguém tenha lido e compartilhado. Foi pro brejo. E eu agora tenho de ir a uma cabine do ETV.

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