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Do Femsa a Céus (e minhas decepção pela montagem no Rio)

Luiz Carlos Merten

13 Dezembro 2016 | 09h01

Lá vou eu fazer inimigos. Fui ontem à festa de premiação do Femsa. Teatro infantil e jovem. Perdi-me na conta. Gabriel Villela concorria em sete ou oito categorias com Peer Gynt. Venceu em seis ou sete – só perdeu o prêmio de cenografia. Dib Carneiro, que integra o corpo de jurados, me contou que foi interpelado por votantes da categorias na APCA. Como assim, Peter Gynt? O Sesi encomendou a Gabriel um espetáculo jovem, à tarde, o que ele fez.Está sendo um sucesso para escolas, e não apenas. Os coleguinhas reclamaram. É teatro adulto. Como concorria no Femsa? Infantis foram então os críticos da associação, que não o premiaram, é isso? Entendi. Brinco com meu amigo. Gabriel cria os mais belos figurinos do teatro brasileiro e mundial, mas, há muito tempo, os críticos passaram a confiná-lo na categoria. Ele merece, mas já me ofereci para ir receber algum desses prêmios e bater com ele na cabeça dos jurados. Se fosse só isso… Onde se viu não dar a Juliana Galdino, por Leite Derramado, o prêmio de melhor atriz da APCA? Mas, enfim, mesmo não tendo visto as demais concorrentes, acompanhei deleitado a festa do Femsa. Estava ao lado da turma de Caminho da Roça, e me encantou ver como vibraram a cada conquista. E confesso que, pelas imagens dos espetáculos, achei muito lindo Planeta Pacífico, que concorria ao prêmio Sustentabilidade e não levou. Pura magia – imaginai. Um saco de lixo vira um pássaro, que sai voando. Lá vou eu viajar. Gabriel me provoca, sobre a superioridade do teatro, dizendo que se pode representar no escuro, mas se tirar o cinema da tomada… Acabou! Fui ver o Céus, de Wajdi Mouawad, no Teatro Poeira, no Rio, no fim de semana. Se faltar energia em Botafogo, não haverá luz de vela que mantenha a montagem de Aderbal Freire Filho em funcionamento. É um filme no palco. Em alguma fase da minha vida, eu teria achado um elogio, mas de tanto ver e conviver teatro já não acho tanto. Teatro e cinema? Isso é coisa para Cristiane Jatahy e Gabriel Villela, que, se fosse cineasta, usaria as trucagens primitivas de Georges Méliès, nada dessa parafernália que as novas tecnologias oferecem. Um dia ainda vou tentar racionalizar sobre as montagens de Gabriel e os cortes secos da Jatahy – poderosa. De volta a Céus, a peça é ágil – as duas horas passam voando, têm ritmo. Mas o texto, com seu urro que fecha a porta do ‘sangue das promessas’, não me convenceu. Wajdi Mouawad ganhou notoriedade com Incêndios, que foi filmado por Denis Villeneuve, e integra uma trilogia com Litoral e Florestas. A impressão é que já escreveu Céus como um roteiro de thriller. Um grupo reúne-se para investigar a possibilidade de um atentado terrorista. O especialista em criptologia se mata. Investigava uma suposta conexão Tintoretto, estabelecida a partir dos signos do quadro do pintor italiano sobre a Anunciação. Os conflitos do grupo eclodem. Há um suspeito entre eles. A ‘mensagem’ – chama a Western Union – é ‘só a arte salva’. Sua destruição devolve o humano à barbárie. Não achei muito denso – nem podia: havia visto a Antígona de Andréa Beltrão e Amir Haddad na noite anterior -, e a pirotecnia das projeções, a gritaria dos atores e o ritmo frenético foram me constrangendo, como se as palavras estivessem perdendo sentido. Menos – pensava, queria. Sílvia Buarque é a única mulher em cena. Salva-se porque subrepresenta, e não digo isso como crítica. Introduz uma nota de silêncio. Um grito silencioso, como o de Edvard Munch, para contrapor ao desespero do pai que… Olha o spoiler. Viajei muito nesse post, mas precisava dar conta do que senti com Céus, depois de ter ido aos píncaros com Antígona.