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Dmytryk e seu grande western antimacarthista

Luiz Carlos Merten

19 Dezembro 2016 | 00h20

Dizem que uma pessoa não morre até que tenha sido completamente esquecida. P.F. Gastal, as iniciais são de Paulo Fontoura. Decano da crítica gaúcha, Gastal era o poderoso editor de Cultura do Correio do Povo, nos áureos tempo do jornal da família Caldas, em Porto Alegre. Sob pseudônimo – Calvero, emprestado a Charles Chaplin, Luzes da Ribalta -, também era o titular da Folha da Tarde. Só que saí de Porto já fazem 28 anos – em dezembro de 1988. No Estado estou há 27. Gastal já havia morrido quando saí de lá. Ele amava Eisenstein, Potemkin!, e Orson Welles, Kane. Mas não perdia a oportunidade de resgatar certos filmes. Tinha verdadeira reverência por Léa Padovani, Léa quem? Volta e meia Gastal citava Sam Wanamaker e Léa, e claro – só podia ser por O Preço de Uma Vida. Give Us this Day. A aventura inglesa de Edward Dmytryk, de 1949. Um marco do cinema social, engajado, político. Por menos ligadas que as pessoas estejam no DVD – hoje em dia está todo mundo no ‘on demand’ -, a Versátil ou a Cult bem poderiam fazer o favor de lançar o Dmytryk. Lembrei-me de Gastal por causa de O Preço de Um Vida, e do clássico de Dmytryk porque saiu em Blu-ray e está sendo resgatado pela crítica de língua inglesa, na Europa e nos EUA. Tenho lido muita coisa sobre Give Us This Day nessas revistas todas. Sight & Sound, Film Comment, Cineaste. No fim dos anos 1940, quando começaram seus problemas em Hollywood, Dmytryk exilou-se na Inglaterra pelo tempo de uma obra-prima. Muitos críticos lamentam que não tenha ficado na Europa. Dmytryk regressou aos EUA e destruiu sua reputação ao colaborar com o macarthismo. Talvez tenham sido Elia Kazan e ele os mais famosos ‘delatores’ da indústria. Cada um teve seus motivos, e Kazan os explica longamente no livro com a entrevista que deu a Michel Ciment. Kazan pode ter encontrado resistências, no plural, mas manteve a aura de grande diretor. A trajetória de Dmytryk foi mais ziguezagueante, mas ele nunca deixou de brigar por uma segunda chance – para seus personagens e para ele mesmo. Dmytryk fez filmes dos quais gosto muito. O Santo Relutante, com Maximilian Schell e Lea Padovani, e Os Insaciáveis, que adaptou de um best seller bem trash de Harold Robbins e dá de dez no Martin Scorsese de O Aviador. A obra-prima pós-macarthismo de Dmytryk é um western que passa amanhã, segunda, 19, na TV paga. É o motivo para eu estar aqui, agora, falando nele. Warlock/Minha Vontade É Lei (no Brasil). Henry Fonda é o pistoleiro contratado para limpar pequena cidade. Chega com o ‘amigo’, Anthony Quinn, e na época foi dos primeiros filmes a encarar a homossexualidade dos mocinhos. Fonda limpa a cidade, assume a estrela de xerife e passa a dominar a tudo e todos. Os cidadãos amedrontam-se, ainda mais que Fonda sempre foi o gatilho mais veloz do Oeste. Até ganhou pistolas de ouro, por isso. Só Richard Widmark compra a briga e o enfrenta. É um homem marcado, ninguém põe fé nele. Warlock sempre teve a fama de western político, até filosófico. É uma metáfora do macarthismo, como outros filmes antes dele – a produção é de 1959. Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann, Johnny Guitar, de Nicholas Ray. Minha Vontade É Lei talvez seja o mais transparente de todos. Dmytryk faz sua autocrítica. Antes desse, ele já havia feito outro belíssimo western – A Lança Partida, com Spencer Tracy, Robert Wagner e Richard Widmark. Curiosamente, era a transposição,. para o Velho Oeste, de um clássico de gângsteres de Joseph L. Mankiewicz, Sangue do Meu Sangue, com Edward G. Robinson e Richard Conte. Compreensivelmente, minha geração sempre teve horror das delações do macarthismo, que produziram as listas negras, verdadeiro flagelo dentro da indústria. Mas Kazan e Dmytryk sempre me pareceram personagens trágicos. O que fizeram não foi por proveito próprio, mas consciência – e você pode pensar: má consciência. Dmytryk, mais até, viveu exilado na América. Segregado como um diretor ‘menor’, um modesto artesão que traiu suas convicções e se vendeu para o ‘sistema’. Nada mais equivocado. Foi grande, imenso, e a prova é Minha Vontade É Lei.