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Djamila Ribeiro na vida (não) é sonho de Kate Winslet e Sam Mendes

Luiz Carlos Merten

06 de julho de 2019 | 13h21

Não lembro exatamente quando comecei a comprar a Folha e o Estado, às sextas, por causa dos respectivos guias. Não faz muito, mas algo se passou, recentemente. A Folha vinha com o guia, a reboque. Há três semanas, olhando a capa, antes de descartar o jornal, vi que anunciava uma nova colunista – Djamila Ribeiro, a autora de Quem Tem Medo do Feminismo Negro? Sou fanzaço. Agora, leio a Ludmila e só depois, ah, sim, vamos conferir os horários do Guia. Se, por acaso, alguém lhe falasse desse post, Djamila talvez achasse graça de saber que comecei a ler seu livro na livraria do IMS. Um dia cheguei cedo para uma sessão do festival de documentários, no outro tinha uma entrevista agendada no café, depois, outra entrevista – ambas, curiosamente, com diretoras. Mulheres. Na livraria, folheei o livro, uma página sobre os efeitos do racismo numa menina negra e a turma do deixa disso. O moleque branco não fez por mal, etc, etc. Lembrei-me de outra antologia, do inominável Olavo de Carvalho desdenhando do slogan black is beautiful. Não fui adiante com o OV, mas curti a Djamila. Li um texto num dia, li outro no segundo. Na terceira vez, comprei o volume. O feminismo negro, esse lugar da fala mexe muito comigo. Li a primeira coluna de Djamila na Ilustrada, sobre Whitney Houston. A segunda, sobre a imensidão do mar, que o pai descortinou para ela e permanece como representação do desconhecido que pode até meter medo, mas não é um bicho papão. Achei linda a crônica, mesmo que o mar, comigo, seja coisa para ver de longe. E chegamos nessa semana a uma coluna em que, à maneira dela, Djamila fala sobre cinema. Kate Winslet, Leonardo DiCaprio em Foi Apenas Um Sonho. Frank, April e a força, de caráter, inclusive, que é preciso para se viver a vida que a gente sonha. Reli agora, só para confirmar, que Djamila em nenhum momento cita o nome do diretor, o ‘autor’, Sam Mendes. Mas diz que é um dos filmes de que mais gosta, e pára tudo para ver quando passa na TV. Curiosamente, também é o ‘meu’ Sam Mendes. Lembro-me da minha indignação quando ele, com sua reputação de grande diretor de teatro, venceu o Oscar por Beleza Americana. Torcia por O Informante, de Michael Mann, e não me conformei que Kevin Spacey – aquele cara! – tivesse roubado a estatueta de melhor ator de Russell Crowe. A própria Academia, percebendo o erro, tratou de recompensar Russell Crowe no ano seguinte, por Gladiador. Não sou um grande fã de American Beauty e creio que nem fiz a leitura correta do filme, porque só quando Mendes fez Soldado Anônimo me caiu a ficha de que ele estava falando sobre a Guerra do Iraque de George Bush para refletir sobre a Guerra do Iraque de George W. Bush, ou seja, usando a América do pai para falar da do filho. Já era o foco de Beleza Americana, de Estrada da Perdição, continuou sendo da obra posterior de Mendes. Gostei muito de Foi Apenas Um Sonho e até esperava que Mendes e seu elenco fizessem bonito no Oscar, mas não foi o caso. Adorei esse reconhecimento para a April de Kate Winslet por alguém a quem admiro tanto. Eu, elogiando a concorrência? Estou elogiando a Djamila, o que é diferente. Mal posso esperar pela próxima sexta.