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Divinas Divas cria novo paradigma

Luiz Carlos Merten

13 de novembro de 2016 | 12h07

Já houve um arte muito especial, patrocinada por produtores/diretores que também eram autores e contratavam artistas gráficos para criar as cenas de créditos de seus filmes. Otto Preminger, Alfred Hitchcock, Stanley Donen, depois os filmes da série James Bond. Saul Bass criou coisas inesquecíveis. A lágrima de Bom-Dia Tristeza, as chamas de Exodus, o bonequinho de Bunny Lake Desapareceu. O grafismo abstrato colorido – a megalópole – de Intriga Internacional, o preto e branco de Psicose. A espiral de Maurice Binder em Charada. A ourivesaria do relógio de Nove Horas Até a Eternidade, de Mark Robson, marcando o tempo até o assassinato de Ghandi. Era uma arte – grande arte. Não é o menor dos méritos de Leandra Leal haver me levado nessa viagem na abertura de seu belíssimo filme Divinas Divas, que revi ontem à noite, no Mix Brasil. Arrastei Dib Carneiro. Já havia visto o filme no Festival do Rio, e gostado muito. Gostei mais ainda. E os créditos – todo o filme já está ali. A arte de se fazer mulher, de se ‘transformar’, ao som de Nelson Gonçalves, Escultura. Tergiverso. No dia da votação do prêmio da crítica na Mostra, Maria do Rosário Caetano me havia falado de um livro da Abraccine sobre os melhores documentários brasileiros, dizendo que eu não poderia deixar de estar nele. Pode ser, mas me escandalizei com os 100 melhores, outra realização da Abraccine (com o Canal Brasil). Limite, de Mário Peixoto, o número um? Nem fodendo. E onde está Selva Trágica, de Roberto Farias? Para mim, é o equivalente a uma lista mundial sem Rocco e Seus Irmãos, o filme da minha vida… Já disse que vi Divinas Divas no Rio. E, na sequência, vi também Pitanga, de Beto Brant e Camila Pitanga.(Curioso, mas na vez anterior não havia me chamado a atenção. Nos créditos finais de Divinas Divas tem um agradecimento especial a Camila e Patrícia Pillar. De que forma terão contribuído?) De alguma forma que ainda não consegui estabelecer/racionalizar, para mim mesmo, esses dois filmes estabelecem um novo paradigma para o documentário brasileiro. Não quero parecer leviano nem ingrato, mas já faz tempo que o cinema brasileiro vive à sombra de Limite, a invenção da classe dominante, e que o documentário também é refém de Eduardo Coutinho. Cada um tem o seu Coutinho. Respeito o Cabra, mas o ‘meu’ é Edifício Master. O canto de cisne é Jogo de Cena. Depois, veio a crise. Coutinho conseguiria se reinventar, como em outras vezes? Teci uma fantasia que nem me atrevo a verbalizar, mas tem a ver com isso (e seu trágico fim). Coutinho criou o paradigma do encontro. Da troca. Filmes como Divinas Divas e Pitanga promovem novos encontros. Reencontros. O Brasil inteiro cabe no Teatro Rival. Já passei tanto por ali. Nunca entrei. É uma lacuna – imensa. Há um momento em que a câmera acompanha as personagens. Elas atravessam a Cinelândia, rumo ao teatro. Não são as divas. Isso elas são no palco. Míticas, poderosas. Duas mulheres de rua, uma com um bebê, cruzam por elas e as seguem fazendo trejeitos. Esses ‘joões’, que se fizeram ‘marias’, enfrentaram isso a vida inteira. O maior elogio que Leandra Leal disse ter ouvido a seu filme foi a declaração de uma pessoas dizendo que nunca mais ia olhar para uma travesti, uma transformista do mesmo jeito. Nunca houve no Brasil, no mundo, um filme que penetrasse desse jeito no universo da identidade sexual. Filmes como o de Leandra e o de Beto Brant e Camila Pitanga colocam imensos desafios para a crítica. Para nós, o público. Repensar o mundo, o cinema. Sair da zona de conforto. Dos mitos estabelecidos. Valéria, umas das personagens, canta My Way, que também é tema em Edifício Master – sempre tem alguém que canta no cinema de Coutinho. Minha cabeça parece que vai estourar de tantas ideias. Não se referem só ao cinema. Aos gêneros, também. É preciso urgência. Ontem, sábado, peguei o metrô, à tarde. Havia um jovem, 20 e poucos anos, com um estojo de instrumento musical. Pelo tamanho, parecia violino. Um violinista parece um cara sensível. Usava uma camiseta ‘Bolsonaro presidente’ E, abaixo, a frase de apoio – ‘Orgulho de ser hétero’. O mundo nunca foi fácil, mas está um lugar cada vez mais assustador, e difícil.

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