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Divagações sobre a série Clássicos do Dia

Luiz Carlos Merten

16 de abril de 2020 | 10h28

Não faço a menor ideia se a série dos Clássicos do Dia está dando leitura – nunca pergunto essas coisas. Escrevo meio em transe, e só depois que envio os textos e algumas coisas ficaram comigo, vou pesquisar. Reli, com imenso prazer, trechos dos livros de Chris Fujiwara sobre Otto Preminger e o Roberto Rossellini de Tag Gallagher, que são, talvez, os melhores livros de cinema que conheço. A vida e a obra dissecadas, esmiúçadas, em pesquisas aprofundadas e redigidas não segundo as normas do manual da academia, que faz com que todas as ‘teses’, não importa sobre quem sejam, se assemelhem. Tag reconstitui a vida amorosa de Rossellini naquilo que ela interfere em sua obra. O grande Roberto era aquilo que hoje se chama de womanizer. Não conseguiu atingir o nível de testosterona de Ingmar Bergman, que, segundo o documentário Bergman – 100 Anos, conseguiu reunir, nos mesmos sets, no mítico ano de 1957, todas as suas mulheres – a ex, a da época e a futura, todas com a penca de filhos ou grávidas. E era todo mundo adulto, tudo consensual, sem mentiras nem traições. Havia uma diferença cultural. Roberto era italiano, latino, numa cultura católica, fundada na culpa e no sentimento de posse. Seus amores foram intensos e as rupturas, convulsivas. Mas talvez não fosse só o elemento cultural. Ingrid Bergman era sueca, como Ingmar, e o fim de caso com Roberto, quando ele voltou da Índia com Sonali Das Gupta, foi uma batalha sem fim pela guarda dos filhos, cada um fazendo tudo para impedir o outro de ter acesso às crianças, mas ela, além de ser a mãe, tinha dois Oscars na estante, o dinheiro de Hollywood na conta e casas na Suécia e na França, enquanto Roberto vivia atolado em dívidas. Truffaut, rosselliniano de carteirinha, até nisso foi discípulo do mestre. Lembro-me da entrevista com Bernadette Laffond e ela a me contar, rindo, que François muitas vezes filmou para dormir (não era bem o termo) com suas atrizes. Divago, como sempre. É curioso como ontem, em busca da confirmação de determinada informação sobre Selva Trágica, tenha feito uma busca que deu em nada. Hoje tentei de novo, por outra ferramenta, e encontrei o Dossiê Roberto Farias do número 15 da revista Filme Cultura, que recomendo a quem quiser saber mais sobre esse outro Roberto, o nosso. No texto sobre Deus e o Diabo, cito que 1964 foi o ano da imposição internacional do Cinema Novo, com dois filmes emblemáticos – dois! – na competição de Cannes, o de Glauber e Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos. Cannes costuma editar, a cada dez anos, um álbum com a história do festival. Localizei Cannes Mémoires numa pilha, não na estante. Fritz Lang presidiu o júri que preferiu premiar o musical Os Guarda-Chuvas do Amor, de Jacques Démy, em detrimento da estética da fome. Por mais que goste do Démy, não creio, no retrospecto, que tenha sido uma decisão acertada. Li os textos de alguns anos e descobri que o escritor Miguel Angel Asturias, presidente do júri de 1970, foi voto vencido na premiação de MASH, de Robert Altman -os demais jurados eram Kirk Douglas, Vojtech Jasny, Karel Reisz, Volker Schlondorff. Embora tenha biografado Anselmo Duarte na Coleção Aplauso, não me lembrava – acho que não coloquei no livro da Imprensa Oficial – que integrou o júri presidido pela atriz Michèle Morgan em 1971, outorgando o prêmio do 25.º aniversário a Morte em Veneza, de Luchino Visconti, e o Grand Prix International, a Palme d’Or daquele ano, a O Mensageiro, de Joseph Losey. Luchino tripudiou – “O meu prêmio ninguém jamais terá.” Eram outros tempos. Charles Chaplin recebeu a homenagem do festival e, velhinho, fez um número com a bengala que Maurice Bessy define como um dos grandes momentos da história de Cannes. E Alain Beverini – participava da competição o sueco Bo Widerberg, que ganhou o prêmio do júri por Joe Hill, a história de um sindicalista que enfrenta o sistema em defesa de sua categoria. Na exibição do filme, coberta de diamantes e cercada por seu entourage, a Begun chorou copiosamente. Pelo operário! ‘C’est ça aussi Cannes, um parfum de surrealisme’, escreve Beverini. No ano seguinte, Losey presidiu o júri que premiou, ex-aequo, A Classe Operária Vai ao Paraíso, de Elio Petri, e O Caso Mattei, de Francesco Rosi, destacando a qualidade excepcional das interpretações de Gian-Maria Volontè nos dois filmes. As memórias de Cannes que não vivi.

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