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Disney, criador da contracultura?

Luiz Carlos Merten

01 Setembro 2015 | 14h29

Quem me acompanha no blog sabe que tenho tido algumas surpresas assistindo, na TV paga, a velhos filmes dos Estúdios Disney, especialmente os live action de Robert Stevenson. Filmes longamente desprezados pelos críticos, como O Fantástico Super-Homem ou Se o Meu Fusca Falasse, a despeito do seu terno (e humorado) sentimentalismo, comportam interessantes observações sobre a sociedade norte-americana no choque das transições comportamentais dos anos 1960. Isso posto, quero dizer que li com muito interesse as informações sobre dois lançamentos recentes de livros, na nova edição da revista Cineaste, uma das tantas (Film Comment, Empire, Entertainment Weekly etc) que comprei em Nova York. Até tentei comprar esses livros, mas não estavam disponíveis na Barnes & Noble, o que me obrigará a encomendar na Amazon ou na própria B&N, antes de outra eventual junkett nos EUA. São assinados pelo mesmo autor, Douglas Brode. From Walt To Woodstock defende a tese, certamente polêmica, de como (how) Disney criou a contracultura e Multiculturalism and the Mouse aborda race and sex, racismo e sexualidade, in Disney entertainment. Esse Disney subversivo era só o que faltava acrescentar à biografia do conservador que, por 26 anos, teria sido (ou foi, segundo pesquisas documentadas) informante do FBI, especialmente durante o período do macarthismo. Na análise de Brode, Disney talvez tenha sido o norte-americano mais influente do século 20, mais do que qualquer outro tycoon de Hollywood. Mas multiculturalismo? Contracultura? Considerando-se que a história é sempre (re)escrita pelos vencedores, pergunto-me se essa ‘reabilitação’ de Disney, às vésperas do cinquentenário de sua morte – no ano que vem -, é uma homenagem ao ‘subversivo’ (preciso ler os livros de Brode) ou, pelo contrário, o último golpe mistificador do admirável (?) mundo novo globalizado.