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Dinheiro, relações humanas e moral em Shaw, A Profissão da Senhora Warren

Luiz Carlos Merten

01 de setembro de 2019 | 22h59

Havia visto, por volta de 1960, quando a maioria de vocês nem era nascida, uma adaptação, feita por Akos Rathonyi, no cinema alemão, de A Profissão da Senhora Warren. Lilli Palmer é quem fazia o papel e, no elenco, havia um ator prestigiado na época – O.E. Hasse. Às vezes me ponho a viajar. O.E. Hasse, O.W. Fischer, Nadja Tiller, Peter Van Eyck. E Rolf Thiele. São nomes que hoje não devem significar nada, mas fizeram parte da minha adolescência de cinéfilo. Pauline Kael tinha uma queda pela Rosemary de Thiele, e Rubem Biáfora era louco por Lulu. Há semanas vinha querendo ver A Senhora Warren de Marco Antônio Pâmio, com Clara Carvalho. Marcelo Pestana e Carlos Cirne, amigos de Santos, encontraram Dib Carneiro no metrô. Desceram na Praça da República e foram ao Teatro da Aliança Francesa para ver A Profissão da Senhora Warren – e me encontraram. O que isso significa? Provavelmente, nada, mas achei curioso, e eles também. A peça pertence ao início da carreira de George Bernard Shaw, quando ele ainda era um socialista fabiano. Inscreve-se na tendência das chamadas ‘unpleaseant plays’, as peças desagradáveis. Vivien vai descobrir a profissão da mãe – puta. A mãe lhe conta uma história triste, que não teve escolha, etc. O que Viv não consegue aceitar é que a mãe, mesmo depois de rica e dona de uma rede de bordeis, continue no ramo. Shaw foi dos primeiros dramaturgos a levantar a questão do dinheiro. Discutia não só a origem, mas sua importância na vida das pessoas – até onde elas vão, vamos, por dinheiro? Viv recusa o dinheiro da mãe, mas vira, ela própria, uma fria e desalmada mulher de negócios. De alguma forma pensei na Petra Von Kant de Rainer Werner Fassbinder. Completam-se no ano que vem 70 anos da morte de Shaw. Senhora Warren integra um díptico do Círculo dos Atores. Na quinta e sexta, é possível ver no Teatro da Aliança A Milionária – que Anthony Asquith filmou com Sophia Loren e Peter Sellers, também em 1960 -, no sábado e domingo Senhora Warren. O Círculo já foi convidado para levar a peça a Portugal, em 2020. Gostei de ver. Algumas frases ficaram comigo – ‘As relações humanas vão muito além do que a moral estabelece’, ‘Se você for escolher suas amizades com base em princípios morais, é melhor sair do país’, ‘As pessoas sempre colocam a culpa nas circunstâncias, eu não acredito em circunstâncias’. O irlandês Shaw provavelmente quis refletir sobre a sociedade de seu tempo, mas as observações seguem pertinentes e valem para o Brasil atual. Todo mundo tem sempre justificativas para o que faz, mas existe uma coisa chamada ética, que deveria impor limites. Ah, é – por que? Depois da Senhora Warren, quero ver agora A Milionária.

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