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Digressões em torno do É Tudo Verdade

Luiz Carlos Merten

24 Abril 2017 | 09h10

Como é mesmo que Lúcia Veríssimo diz em seu filme Eu, Meu Pai e Os Cariocas – 7- Anos de Música Brasileira? Ele foi o único homem que amou? Ou o que mais amou? Ao longo do filme, o maestro Severino Filho também é caloroso com a filha – diz que ela é ‘minha musa’ e depois brinca, ‘Sua mãe vai ficar com ciúmes’. Espero não me arrepender do que vou escrever, mas o bom do blog é essa possibilidade que se tem, como num diário, de registrar impressões e, mais tarde, reafirmá-las e até corrigi-las. Estou numa fase de encantamento com o documentário brasileiro, e isso antecede o 22.º Festival Internacional de Documentários É tudo Verdade, que está rolando. Pitanga, Divinas Divas me provocaram verdadeiras comoções. Era o Hotel Cambridge, que também amei, é outra coisa, mais ficcional, ensaístico. E eu gostei muito de Cinema Novo, de Jovem aos 50. Respeito o Martírio. Não são documentários ‘sociais’, no sentido clássico – exceto o de Vincent Carelli, e eu insisto que Hotel Cambridge é outra coisa (ficção?) -, mas dão conta das transformações políticas e comportamentais do Brasil de uma forma muito rica. Beto e Camila reinventam os encontros de Eduardo Coutinho, Leandra Leal encontra uma forma muito pessoal de se relacionar com as divas. Faz do Teatro Rival e da Cinelândia carioca metáforas do País, e nesse sentido o filme dela, de alguma forma, cruza-se com Paterson no meu imaginário. Como disse Jim Jarmusch em Cannes – o homem é metáfora da cidade, a cidade, do homem e ambos viram poesia. Fiquei muito tocado com Eu, Meu Pai e os Cariocas, e pode até ser porque sou pai. Tenho amigos que não gostaram tanto. Acharam o ego de Lúcia, a Veríssimo, não a minha, exagerado. Eu identifiquei em Eu, Meu Pai e os Cariocas o mesmo problema que sinto em Jovem aos 50 – lá pelas tantas, os dois filmes ficam meio institucionais e os narradores (Milton Gonçalves e Lúcia Veríssimo) exageram nos elogios, como se a estrutura audiovisual não tivesse dado conta da magnitude do que estão falando. Isso rouba uma e talvez duas das cinco estrelas que os filmes poderiam almejar. Mas são bons, necessários. E Lúcia termina muito bem o filme dela, com os aplausos. Sua montagem é sofisticada. Gostei do jeito como ela desmonta as músicas em diferentes vozes, incluindo as dos Cariocas. Gosto menos da passagem a galope pelas presidências de Tancredo, Fernando Henrique, Lula e Dilma para compor os 70 anos, mas o momento deles – dos Cariocas -, o Brasil de Juscelino, de Brasília, do desenvolvimentismo, da Bossa Nova, é muito bem desenhado. A ‘mensagem’, não sei se concordo integralmente, é clara – o Brasil ainda tem de se aperfeiçoar para merecer a Bossa Nova, Tom Jobim, os Cariocas. O maestro Júlio Medaglia esculhamba com o gosto médio musical do brasileiro na atualidade. Fiquei com esse mesmo sentimento – Jesus! – desde que vi o Show da Virada, na Globo. Para um País que já teve as harmonias de Tom, dos Cariocas, a musicalidade de Elis, a coisa anda à deriva. Falei tanto em metáforas nesse texto. Não será essa decadência uma metáfora do que tem ocorrido nos últimos tempos? Alguns malucos pedem a volta dos militares, outros lançam Dória para presidente. Desde que ele assumiu, deve ser em protesto, os semáforos da Av. Rio Branco, sentido Centro, pararam de funcionar. Até quando? Queria prosseguir falando de documentário e poesia – Quem Foi Primavera das Neves, de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo. O filme nasceu do estranhamento que o nome produziu em Jorge. Quem foi essa mulher? Quem foi, ele (e Ana Luiza) contam. Primavera traduziu Emily Dickinson e é comparada a ela. Gostei do filme, mas não tanto quanto gostaria. Primavera viveu sua vida em silêncio, e foi o que retive do que disseram as amigas, o ex-marido, eterno apaixonado. O excesso de informações do filme sobre uma personagem anônima de alguma forma me paralisou. Mais virou menos – para mim. Queria de volta o silêncio. O pudor da amiga, ao falar da separação do casal. As lágrimas do ex-marido. É curioso. Primavera traduziu Emily Dickinson e, nos próximos dias, estreia A Quiet Passion, de Terence Davies, que no Brasil vai se chamar Além das Palavras. Outro filme sobre poesia, sobre uma vida minimalista, tranquila – como Paterson. Duas das melhores ficções do ano, as duas melhores interpretações. Adam Driver e Cynthia Nixon. E os documentários, que estou amando. Estamos em abril, mas alguma coisa, uma lista?, já se desenha para mim.