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Difícil é pensar num mundo que briga para ser alienado

Luiz Carlos Merten

13 de outubro de 2019 | 11h26

Quase uma semana sem postar, mas não foi por falta de assunto. Já vinha desde a semana passada o anúncio do governador de que vai investir R$ 200 milhões no audiovisual seletivo, isto é, com filtro ideológico, excluindo as obras que, segundo João Dória, possuem conotação político/partidária. O problema é que, pra ‘essa gente’, quem não está com eles está necessariamente contra e se torna alvo de ataque. Vocês sabem que não tenho celular, só vão conseguir provar que tenho um se plantarem, após minha morte. Consequentemente, estou fora das redes sociais, dos apps, o que para muita gente deve me transformar num alienado, mas para mim é uma benção. Me deixa fora dessa máquina de criar loucos que virou a telefonia celular, com seus montes de penduricalhos. A verdadeira alienação dos tempos modernos é estar nessa bolha. Acabo de ler a matéria de Fred Melo Paiva, na Carta, sobre seus dias de bolsominion infiltrado em redes apoiadoras do presidente. Fred, com certeza, inspirou-se no Spike Lee de BlacKkKlansman/Infiltrado na Klan. Criou uma identidade e conta histórias que me deixaram pasmo sobre fake news tão elementares que parece mentira que consigam guarida, mas é que os corações e mentes já estão tão deturpados que fica a sensação de que o mundo não tem mais salvação. Verei a luz no fim do túnel? Volto ao cinema, meu refúgio. Tenho visto as cabines da Mostra, dois filmes toda manhã, mas no geral tenho visto só o segundo, porque o horário do primeiro bate com a físio. Gostei muito de um documentário do Rodrigo Areias, Hálito Azul – a fascinação do mar -; impressionou-me demais um filme alemão sobre um pedófilo, Mente Perversa, de Savas Ceviz, com um ator maravilhoso, Max Riemelt (preferiria que se chamasse Mente Enferma, por conta do desespero do personagem); e o velho Casanova de Benoit Jacquot, O Último Amor, com Vincent Lindon, que se firma cada vez mais como o grande ator francês da atualidade – também está no Em Guerra de Stéphane Brizé, nos cinemas. Lindon está virando uma persona icônica como Yves Montand. Faz filmes políticos e, mesmo quando não o são, faz politicamente os filmes. A propósito, quando entrevistei Brizé sobre Em Guerra (e a Lei do Mercado e Uma Vida), conversamos sobre Costa-Gavras, claro, e seu viés ideológico, esquerda/direita, hoje substituído pela questão econômica, desde que, no neoliberalismo, o lucro foi substituído por competitividade. Pensem – para estimular a dita competitividade, é preciso diminuir riscos e custos, e isso está na essência dessa avalanche de direita que, para tentar manter privilégios, passa como rolo compressor em cima de direitos humanos, defesa do meio ambiente, etc., tudo para fazer valer a mais valia. O tempo passa, o mundo (a Terra) roda e voltamos a Marx. Aquele fantasma continua nos rondando. Assisti, ontem, finalmente, ao Ang Lee, Projeto Gemini, mas esse será objeto de um post inteiro.