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Dib Carneiro, Shakespeare: meu fim de semana no teatro

Luiz Carlos Merten

21 de setembro de 2015 | 09h37

Tive um fim de semana bem intenso, muito teatral. Na sexta, houve a estreia paulistana de Pulsões, texto de meu amigo Dib Carneiro com direção de Kika Freire. O texto é maravilhoso. O encontro da bailarina e do maestro, a música dele completa-se na expressão do corpo dela. Mas há algo doloroso nessa relação. Podem ser médico e paciente, ou dois internos num instituto psiquiátrico atormentados por crimes que cometeram. Psicanálise e arte, amor e morte. Acompanhei o processo criativo de Pulsões e sei que Dib nunca pensou em O Ano Passado em Marienbad, mas, de qualquer maneira, os dois Alain, Resnais e Robbe-Grillet, estão lá no palco do Teatro Sérgio Cardoso, nem que seja no meu olhar. O homem que provoca o fluxo de consciência no imaginário dessa mulher, atormentada como ele. E a música, e a concepção cênica, as cores e objetos que criam um universo meio irreal, de lembranças (infantis?) e que remete ao que existe de dark nos contos de fadas. O espetáculo já nasceu comprometido com as imagens do inconsciente da doutora Nise da Silveira – vou fazer o debate do filme de Roberto Berliner sobre ela no Festival do Rio, estou bem animado. Mas à doutora Nise acho que Dib, com sua vivência de crítico de teatro infantil, somou a psicanálise dos contos de fadas de Bruno Bettleheim. O importante é que, depois de sua brilhante parceria com Gabriel Villela, o grande – depois, não, com sua parceria -, Dib encontrou em Kika outra alma gêmea, uma diretora que o entende e expressa, com delicadeza e profundidade. E o elenco – um casal de atores e um casal de músicos. Cadu Fávero e Fernanda de Freitas despedaçam-se em cena. No Rio, a peça fez mais sucesso de crítica que de público. Uma conhecida atriz carioca fez saber ao Dib que o texto era muito pesado e chegou a sugerir que ele tentasse escrever uma comédia, porque o público de lá gosta mesmo é de rir. Nesse sentido, Pulsões tem mais chance aqui em São Paulo, mas o público precisa descobrir a peça para começar a ir. Isso posto, quero acrescentar que os paulistanos também riem. Fui ver ontem a montagem de Como a Gente Gosta de Vinicius Coimbra. O cara não é mole, não. Depois do fraseado de Guimarães Rosa no cinema, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, o de Shakespeare no palco. Era o último dias cdo espetáculo no Teatro Nair Bello, no Shopping Frei Caneca, e o próprio Vinicius veio prestigiar a despedida de seu elenco, à frente Pedro Paulo Rangel, como o Bobo. O espetáculo é minimalista. O cenário reduz-se a uma simulação de árvores e o figurino é básico, com o nome dos personagens inscritos nas camisetas pretas que todos portam. As You Like It pertence ao ciclo das comédias românticas que Otto Maria Carpeaux – meu guia quando o assunto é o bardo – define como sendo de alegria quase celeste. O Amor, com maiúscula, segundo William, que intervém como personagem. Uma comédia de erros e de personagens travestidos, rica em sugestões de gêneros (sexuais). Vinicius Coimbra, também adaptador, traz a poética de Shakespeare para o linguajar mais prosaico do dia a dia paulistano (e, imagino que, no Rio, do carioca). A comunicação com a plateia é plena. Ao final, saímos todos, o público, em estado de graça, o que aumentou minha curiosidade pelo Macbeth do diretor, A Floresta Que Se Move, que integra a seleção da Première Brasil, no Festival do Rio. Em conversa com Coimbra, ele já me disse que seu Macbeth vai na contramão do sanguinário e violento do australiano Justin Kurzel, com Michael Fassbender e Marion Cotillard, que vi em Cannes. O que lhe interessa é a força do Verbo shakesperariano, mas a história de As You Like It, com suas traições familiares, não deixa de ter um pouco de som e fúria, e também de ser contada (ou refletida) por um bobo, só que agora dentro do espírito de alegria celeste captado por Carpeaux. É um Shakespeare sereno, como o será o mais tarde, e com muito mais razão o de A Tempestade, sua penúltima peça, com muito de testamento (ou de autorreferência), que Gabriel Villela transformou num espetáculo deslumbrante que está lotando o Tucarena. Encanta-me ver como textos consagrados ainda oferecem diferentes possibilidades de leitura – de reinvenção, em suma.

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