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Diários do Abismo

Luiz Carlos Merten

02 de abril de 2019 | 09h58

O jornalista de cinema não abandona o teatro. Falei, no post anterior, sobre a encenação antinaturalista de Caetano Gotardo que coloca em cena a investigação sobre o corpo dele em Seus Ossos e Seus Olhos, o que me leva ao monólogo de Maria Padilha que vi no domingo no Sesc 24 de Maio. Confesso que queria ter visto Tom na Fazenda, que Xavier Dolan filmou, mas o Sesc Santo Amaro é longe e eu temia ficar espremido entre o jornal e a Aurora. Tinha uma janela para ver uma peça. Fui ver Diário do Abismo. Antes do espetáculo, quero fazer uma observação crítica que espero não prejudicar o Sistema S, já na mira desses celerados que querem acabar com a cultura no País. Imagino que o Sesc deva ter um sistema de venda de ingressos que priorize associados do comércio. Fui comprar o ingresso antes de ir para o jornal, no Limão – para garantir -, e havia apenas três disponíveis. Queria as extremidades, e eram. Dois, na L, à esquerda do palco e um à direita, na K, ambos lá atrás. Peguei o K, 16 ou 18, nem lembro mais, para dar a chance que alguém acompanhado escolhesse o L (afinal, ia sozinho). Esse bloqueio de assentos não corresponde à realidade e, na hora, havia quase metade (um terço, vai) da sala disponível, inclusive nas duas extremidades. Coisa esquisita. Permaneci no meu lugar, de qualquer maneira. Não foi o que me impediu de fruir o espetáculo. Diários do Abismo é uma investigação sobre a mente humana e a loucura, sobre o processo de criação. De perto, ninguém é normal, diz Caetano, a quem Nana Caymmi chama de chupador do…. Esquece a Nana. A peça é uma adaptação dos escritos de Maura Lopes Cançado, que nos anos 1950 foi internada como louca em institutos psiquiátricos. Seu diário autobiográfico chama-se Hospício É Deus, e virou a parceria da atriz com o diretor Sérgio Módena (Pedro Brício assina a adaptação). Não discuto a adaptação, nem as dilacerantes reflexões de Maura. No diário, ela escreveu – ‘Estou brincando há muito tempo de inventar e sou a mais bela invenção que conheço.’ Incomodou-me o tom naturalista do discurso, que vai ficando monocórdico e lá pelas tantas eu não conseguia mais dar conta da perturbação existencial da personagem. Ficou chato, e eu pensando se valeria a pena rever Diários do Abismo, quem sabe sentado mais perto do palco? Por via das dúvidas, prefiro ver este fim de semana Tom na Fazenda. Mas tem um problema – termina a Mostra Tiradentes e começa o É Tudo Verdade. Nóis sofre mais nóis goza, tentando conciliar tanta cultura.

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