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Diário de Cannes (9)

Luiz Carlos Merten

16 de maio de 2014 | 20h41

Festival de Cannes
CANNES – Foi um dia muito tenso, agitado. Só o filme de Nuri Bilge Ceylan, Winter Sleep, tinha mais de três horas de duração e foi programado no meio da tarde, quando o acesso ao palais, de onde eu vinha, já estava fechado. Tive dar a volta olímpica na Croisette lotada. Fui salvo por Christine Aymé, da assessoria do festival, que me viu barrado por policiais e enviou alguém de seu staff para me liberar. Tive também a rádio, e precisei vir ao hotel – estou postando daqui – para gravar um boletim, outro sufoco. À medida que se aproxima o fim de semana, o movimento aumenta na Croisette. É muita gente atraída pelo glamour de Cannes. Enfim, passou. O dia começou com o canadense de ascendência armênia Atom Egoyan, com The Captive, prosseguiu com o Nuri e entre ambos eu não dispensei Como Treinar Seu Dragão 2, que achei uma delícia. Jantei num mexicano e encerrei a noite vendo o argentino Relatos Salvajes, de Damián Szifron, produzido pelos irmãos Almodóvar, Pedro e Agustín. Egoyan conta a histórias de um pai para resgatar a filha que foi sequestrada. Ele vira suspeito, o casamento desintegra-se, mas Ryan Reynolds nunca desiste de procurar a garota. Passam-se os anos, ela está sendo usada como chamariz num site que alicia meninas para pornografia e outros abusos. O filme começa muito bem, mas de alguma forma Atom perde o foco. Ele retrata um mundo regido por sistemas de segurança, mas esses sistemas terminam usados pelos criminosos. Isso e a denúncia da internet poderão valer certa notoriedade a The Captive, mas não é um grande Egoyan, como O Incerto Amanhã. Numa cena, a policial que investiga o caso, Rosario Dawson, vê que seu novo parceiro desvia o olhar ao ver imagens horripilantes do abuso infantil na rede, como eu próprio fechei osd olhos em certas cenas de incesto do filme israelense Loin de Mon Père, na noite anterior. Aquele pai já ganhou o troféu Mundo Cão como representação do que há de pior e mais doentio no ser humano. Manter o foco, o olhar como cidadania, eis o tema de Egoyan. O de Ceylan é a palavra. Um ex-ator que quer escrever um livro sobre a história do teatro na Turquia. Ele possui um hotel, propriedades herdadas da família, é um homem rico. A irmã o acusa de haver frustrado as expectativas da família – que havia colocado a barra muito alta -, a mulher, mais jovem, quer mudar o mundo e forma grupo para angariar fundos de assistência a escolares carentes. Os personagens falam muito, agridem-se, o filme dialoga com Chekhov e Ingmar Bergman, cenas de família, cenas de um casamento. E a luz de inverno é linda. aqueles céus de nuvens cinzentas de que Ceylan possui o segredo, a neve, os interiores iluminados pelo fogo. Gostei muito – mas não é Era Uma Vez na Anatólia. Alguém há de dizer que um festival como Cannes não deveria abrir espaço para uma animação como o Dragão 2,mas eu insisto que Cannes é o que é justamente por abrir esses espaços para a diversidade. E o filme é lindo – o jovem dragon master e seu dragãozinho, um sem pé, outro sem asas, enfrentam perigos maiores que no primeiro filme, mas a união entre ambos faz a força e supera tudo. É um filme que fala de afeto, de morte, de superação. E, para fechar a noite, os relatos selvagens. Não uma história, mas diversas histórias, um filme em esquetes, todos realizados pelo mesmo diretor. O cinema argentino entra na comédia num registro muito autoral e bastante distinto dos sucessos de público do cinema brasileiro. Histórias de horror. Um avião que cai, dois motoristas que se matam numa estrada, um técnico em explosivos que se cansa da burocracia e quer mandar tudo para os ares, um pai que busca bode expiatório para o acidente provocado pelo filho (ele atropelou e matou uma grávida e seu bebê) e, por fim, a tragédia de um casamento, quando a noiva descobre que o agora marido a traía com uma convidada. Relatos realmente selvagens, mas o horror, filtrado pelo humor, produz um resultado insólito e salutar.; Esses argentinos não cessam de surpreender. E Ricardo Darín, claro, está no elenco. Alguma dúvida?

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