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Diário de Cannes (8)

Luiz Carlos Merten

15 de maio de 2014 | 20h30

Festival de Cannes

CANNES – Cá estou eu de volta ao hotel, depois de jantar no Café Roma. Rolou um stress no final de tarde. Não havia conseguido falar com a redação do Estado, as matérias ficaram maiores  do que haviam sido anteriormente acordadas e, para complicar, eu não conseguia me conectar no hotel. Corri ao centro de imprensa, no próprio palais, e consegui enviar as matérias aumentadas, isso depois de passar pela Croisette, pela Plage du Festival, onde Oito e Meio inaugurou o Le Cinéma de la Plage.La rumba, Seraghina – não creio que Federico Fellini tenha feito alguma outra coisa que mexa tanto comigo. Seraghina dança de pés descalços na areia da praia em que vive, o filme foi exibido num telão montado na areia de outra praia. Era só seguir a areia e, de repente, já estava dentro da tela, e num filme que trata, entre outras coisas, do limite entre realidade e imaginação. Grande Fellini – grande Mastroianni, que faz Guido Anselmi, o diretor do filme dentro do filme, e cuja imagem ornamenta o cartaz desse 67.º festival. Mas não é sobre isso que quero falar. A seleção de Un Certain Regard, pelo menos neste começo, está de cortar os pulsos. No ano passado, tivemos Um Estranho no Lago, A Imagem Que Falta e até A Gaiola de Ouro – que é bom mas não tanto,. por isso o ‘até’.  Este ano, Um Certo Olhar decolou com Party Girl, a p… que quer permanecer p…, que sonha com um príncipe encantado e que, embora velha e gasta, sonha com um príncipe jovem e belo. Depois da alienação de Angélique, com seus arroubos de menina-moça, veio coisa muitíssimo pior. A diretora israelense Keren Yedaya até que avisou. Disse que não tem nada contra o cinemas diversão, mas advertiu que o filme que a gente ia ver era barra-pesada. Loin de Mon Père, Longe do Meu Pai., tem um título alternativo – The Lovely Girl.  É um filme sobre incesto. Garotas é amante do pai, e se sujeita a ele. Sexo anal, felação. O cara é um animal, ela o idolatra, tem ciúme. Sua reação é se mutilar. A diretora e sua roteirista – como se chama mesmo a Abecassis dos filmes de Amos Gitai? – abordam um assunto mais tabu que o próprio incesto. O prazer que as vítimas de abuso podem ter e que, no fundo, contribui decisivamente para a culpa (e o trauma). Rejeitada pelo pai amante, que leva uma namorada para dentro de casa, a garota pira, cai na noite, entrega-se a um grupo de rapazes que são outros cafajestes e se aproveitam dela. Mas ela é recolhida por uma boa alma, uma mulher. O pai tenta exercer sua influência, exulta quando a filha aparece grávida. Tem um discurso absurdo,. do tipo ‘Vamos fugir para Los Angeles, lá seremos normais como todo o mundo.’ Mas nem a diretora teve coragem de tornar o filme ainda mais complicado. E se o filho fosse de um dos garotos com quem a protagonista ficou na praia? O importante é que a heroína, ao contrário da Party Girl, que permanece alienada, toma consciência. Aleluia! Daí ao título, Longe do Meu Pai, é um passo. Mesmo com esse poderoso passo adiante, a visão que os dois filmes inaugurais de Um Certain Regard passam me deixou sem bússola. Prometo não falar mais de judeu e dinheiro, porque são temas tabus e poderão me valer nova acusação de antissemitismo, como naquele episódio do making of de Irmã Dulce. Mas e o pai judeu, o sociopata que não só come a filha como faz sexo anal da maneira mais violenta possível com ela? OK, esse tipo de comportamento enfermo aparece em todos os grupos sociais, mas o judeu, até pela shoah, deveria ser uma salvaguarda moral. Quando não é, o sentimento é de derrisão, e foi assim que me senti no fim da exibição de Loin de Mon Père. A maioria do público desertou no fim da sessão. Ficaram (ficamos?) poucos para aplaudir Keren Yedaya. Não sei se haverá filme mais duro – melhor, ou melhores, acredito que sim – neste festival. Confesso que ainda estou em choque. É rato, mas houve momentos em que desviei o olhar. Não conseguia/queria ver o que estava na tela.

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