As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Diário de Cannes (4)

Luiz Carlos Merten

14 de maio de 2014 | 19h21

Festival de Cannes

CANNES – Em 1967, se não erro o ano, Michelangelo Antonioni ganhou a Palma de Ouro por Blow-Up, que no Brasil se chamou Depois Daquele Beijo. Grande como é, o filme provocou controvérsia por seu final – o jogo de tênis sem bola, lembram-se? Mais de 40 anos depois, quase 50, o africano (da Mauritânia) Abderrahmane Sissako propõe outro jogo sem bola, agora de futebol, para denunciar as jihads em seu país. Num texto no catálogo do festival, Sissako lembra um evento ocorrido em 29 de julho de 2012, em Aguelhok, um vilarejo no norte do Mali. Naquele dia, sob a indiferença do mundo, pois o caso nem chegou a ser midiatizado, um casal foi morto a pedradas segundo a lei islâmica. Eram pais de dois filhos. Amavam-se. O crime – não eram casados.  O filme – Timbuktu – não conta exatamente essa história, mas mostra o que ocorre quando o fanatismo religioso dita as regras. Nada de cigarros, de música, de futebol. Os habitantes do vilarejo desafiam a ordem. Jogam sem bola. Comemoram um gol inexistente. E antes, numa conversa sobre a Copa da França, dizem (os jihadistas) que a seleção francesa só ganhou porque o governo despachou uns sacos de arroz para o Brasil, país pobre, em troca da vitória. Em 2002, Sissako fez um filme chamado Heremakono, À Espera da Felicidade. Doze anos mais tarde, a felicidade está cada vez mais difícil numa África dividida, sobre a qual avança o fanatismo. O protagonista é casado, tem uma filha e um garoto que adotou, e que cuida do gado. Vivem todos bem, fazendo planos para o futuro, mas uma tragédia vem perturbar a promessa de felicidade. Numa disputa com um vizinho, o homem o mata, acidentalmente. É condenado à morte, mas, ao redor, o mundo todo está mudando para pior. De nada adianta o iman do vilarejo se opor aos ocupantes, invocando a misericórdia de Alá. Nada de compaixão, o Alá que eles cultuam é o das proibições. Tudo é interdito para os outros, mas não para os que aplicam as nova lei. O cinema africano tem outro tempo, constrói outras metáforas. O filme começa e termina com uma gazela que corre no deserto – que foge. De quê? Da barbárie. O festival está começando, mas seria bom se o júri de Jane Campion já colocasse Timbuktu numa reserva. Quem sabe…?

Tudo o que sabemos sobre:

Festival de Cannes

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: