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Diário de Cannes (38)

Luiz Carlos Merten

24 de maio de 2014 | 17h44

CANNES – Estou de volta ao hotel, rapidinho, e quero acrescentar esse post para dar conta da premiação do 67.º Festival de Cannes. O júri presidido por Jane Campion pode não ter repetido a ousadia do de Steven Spielberg no ano passado, mas fez escolhas coerentes, se não totalmente acertadas. Não curti muito os prêmios de interpretação para Timothy Spall (Mr. Turner, de Mike Leigh) e Julianne Moore (Maps to the Stars, de David Cronenberg), mas isso tem mais a ver com os filmes do que com o trabalho dos atores. O Grand Prix para a italiana Alice Rohrwacher talvez tenha sido exagerado, mas Jane Campion, única mulher a ganhar a Palma de Ouro, teria de honrar uma diretora. Preferiria que tivesse sido a japonesa Naomi Kawase, mas tenho a impressão de que ela própria cravou a expulsão do Palmarès, ao declarar numa entrevista que só a Palma lhe interessava. O filme de Alice, Le Meraviglie, tem qualidades, mas o de Kawase é daquelas obras que, como no cinema de Krszystof Kieslowski, avançam no rumo de dizer o que seria indizível nos filmes. Amei Still the Water, como amei o turco (Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan) e o africano (Timbuktu, de Abderrahmane Sissako). O filme de Ceylan ganhou o prêmio Fipresci, como melhor da crítica. Aborda o problema do intelectual no mundo contemporâneo por meio de um ex-ator que virou cronista num jornal de província. Ele fala de tudo e, num diálogo forte, a irmã o acusa de ser superficial em tudo o que diz. Outra discussão, com a mulher, coloca o limite da sua, digamos, reflexão. Ela quer passar à ação, quer mudar o mundo, um discurso meio Maio de 68, que parece anacrônico face ao individualismo de 2014. É um filme sobre a luz – quando virem, vocês vão entender o que digo. Todo o movimento do filme é para iluminar a trajetória do personagem, (e do espectador).  Belíssimo. Imagino que o júri tenha chegado à conclusão de que Ken Loach e os irmãos Dardenne já receberam prêmios demais em Cannes. É verdade, mas é injusto. Barry Ward é excepcional como o protagonista de Jimmy’s Hall e eu simplesmente não tenho palavras para definir a Marion Cotillard de Dois Dias e Uma Noite. O russo Andrei Svyagintsev teria de ganhar um prêmio pelo retrato devastador que faz da Rússia de Putin em Leviathan, mas eu confesso que gostaria de fazer uma inversão, Melhor direção para ele e melhor roteiro para o Bennett Miller de Foxcatcher, mas o problema é que se o russo escreveu seu filme, o norte-americano, não. Não seria um prêmio para ele. Xavier Dolan, assinando com Mommy seu melhor filme – e o garoto tem só 25 anos -, poderia aspirar a mais que o prêmio do júri, que dividiu com o Jean-Luc Godard de Adieu au Langage, mas os dois prêmios fazem todo sentido. O autor mais velho da competição, Godard, com 83 anos, e o mais jovem, Dolan. Um com o 3-D (Godard), o outro com o formato quadrado (Dolan) afrontaram o problema da linguagem como talvez nenhum outro diretor, ou diretora, em todas as seleções do festival. No ano passado, só fiquei puto com Spielberg por haver excluído Roman Polanski (Vênus de Vison)  da premiação. Neste ano, mais até do que com Kawase, acho que a injustiça foi com Abderrahmane Sissako. No meu inconsciente, achei uma desculpa. A atriz iraniana Leila Hatami, de A Separação, integrava o júri. Em seu país, os aiatolás só faltaram pedir sua cabeça por haver beijado Gilles Jacob na montée des marches, a escadaria do palais. O filme de Sissako, devastador como o de Svyagintsev, é sobre o inferno que os jihadistas criam numa aldeia africana. Imaginei que o júri deve ter pensado que poderia colocar Leila em, perigo, premiando Timbuktu. Terminou, e agora temos de nos preparar para Cannes em 2015. Sob nova direção, sem Gilles Jacob.

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