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Diário de Cannes (22)

Luiz Carlos Merten

22 de maio de 2014 | 07h24

CANNES -Conversava com meu amigo Carlos Eduardo, de Londrina -Ken Loach e seu roteirista Paul Laverty trazem sempre o mesmo filme a Cannes. Verdadeiros tratados de dialética marxista transformados em dramas reais. E posto que a vida, não importa quão sombria ela possa ser. tem seus momentos de alegria, eles não se vexam de temperar seus dramas com toques de humor. Eventualmente, fazem até comédias – como aquele filme sobre os ladrões de uísque. Espero que Loach e Laverty já tenham voltado atrás – o diretor anunciou que Jimmy’s Hall será seu último filme. Se for, ele nos fará uma falta imensa. Jimmy’s Hall conta a história de Jimmy Gralton, um irlandês que, nos anos 1920 e 30, fez sua pequena revolução a partir de um salão de dança que era, ao mesmo tempo, centro cultural e esportivo. A Igreja e osz grandes proprietários o chamavam de comunista e se uniram contra o que consideravam sua influência nociva sobre os jovens. Jimmy foi banido para os EUA. Morreu no exílio. Como se trata um personagem desses? Em Dois Dias e Uma Noite, dos irmãos Dardenne, há umas cena, perto do final, em que Sandra, a personagem de Marion Cotillard, depois de bater à porta de vários compnheiros para lhes pedir que mudem o voto que poderá expulsá-la da fábrica. Ela se senta no carro com o marido e a amiga, que abandonou o companheiro para mudar seu voto. Ouvem um rock’n’roll. A cena é para cima  e levanta o ânimo não apena das protagonista. Do público, também. Mas os Dardenne continuam, porque não querem apaziguar as consciência do público, mas dirigir o espectador a uma solução mais tensa, que tira o público da sua zona de conforto. Dois Dias e Uma Noite é sobre a solidariedade num mundo em que ela está ficando cada vez mais rara. Ken Loach também quer falar sobre isso – a solidariedade. O filme dele termina com o que parece uma derrota,. e vira uma vitória. Uma cena para cima, que os Dardenne talvez tivessem estado. Passei quase duas horas muito boas com Jimmy, o personagem. O ator Barry Ward é ótimo, com seu charme viril. Possui uma cena linda. De volta do primeiro exílio – não houve regresso do segundo -, ele reencontra a mulher que nunca deixou de amar. Ela se casou, tem dois filhos, e também nunca deixou de amá-lo. Participa da luta – está sendo um festival de mulheres fortes e lutadoras, Maria do Rosário Caetano gostará de saber disso -, mas permanece fiel ao marido. Numa cena, Jimmy e ela dançam. É o mais próximo que conseguem estar. E é – as cena – um dos grandes momentos deste festival.

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