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Diário de Cannes (2)

Luiz Carlos Merten

14 de maio de 2014 | 11h22

Festival de Cannes

CANNES – Nicole Kidman fez um discurso de quem não entendeu nada. Para ela, Grace de Mônaco – é o título do filme de Olivier Dahan, não Grace Kelly -, é um filme sobre o amor, e sobre uma mulher que faz suas escolhas. O próprio Dahan reforçou a ideia. Quanta mulheres fazem escolhas ditadas pelo amor. Grace, convidada por Alfred Hitchcock para estrelar um novo filme – Marnie – , desiste do cinema por amor da Rainier. Certo? Falso. Mas o que é falso, e o que é verdadeiro em Grace de Mônaco? O Que é realidade e o que é ficção? Olivier Dahan jura que não quis fazer uma biopic. Ele pega um momento particular da vida de Sua Alteza Sereníssima. Em 1961, cinco anos após o casamento do século, Grace não aguenta mais o protocolo, o marido, a vida no palácio. A seu confessor, o padre Tuck, fala em divórcio. Nunca houve um na história do principado de Mônaco, e se houver o primeiro ela perder[a a guarda dos filhos, que são, afinal, herdeiros de um trono, mesmo que do menor país do mundo. Neste momento, explode uma crise entre Mônaco e a França. De Gaullew, pressionado pela guerra colonial contra a Argélia, precisa de recursos. Decreta que Mônaco, todos os monagescos terão de pagar impostos à França. O caso evolui para uma ameaça de invasão, e de guerra. Neste quadro, a Grace de Olivier Dahan salva o principado e seu casamento. Como? Representando. Grace Kelly, a atriz, encarna sua personagem definitiva, Grace de Mônaco. A máscara cola ao rosto. O filme não esclarece o mistério de Grace. Exiuste uma série de informações – sobre o pai dela, que era contra a carreira da filha, sobre a mãe, sobre a insegurança do príncipe Rainier, sobre a conspiração da irmã dele para ficar no trono -, mas o mistério permanece. Grace, privada de voltar a Hollywood, faz de Mônaco um imenso estúdio. Representa o tempo todo – o filme, aliás, começa e termina com filmagens. Que Nicole é boa (grande?) atriz, todo mundo sabe, mas Grace é um de seus melhores papeis. O melhor? Ela disse que reviu os filmes – Janela Indiscreta é seu preferido -, assistiu a cinejornais e noticiários de TV. E teve uma ajuda considerável – a Maison Dior liberou o figuri8no clássico da princesa, Cartier franqueou as joias, tudo para que ela entrasse no clima. Tim Roth, que faz Rainier, pelo contrário, disse que se beneficiou de quão pouco material iconográfico existe sobre o príncipe. Mas ambos criaram personagens. No final, havia gente reclamando – Grace era alcoólatra, ninfomaníaca, o filme a retrata como santa. O filme a retrata como a atriz que nunca deixou de ser. Um conto de fadas? Dahan revelou – Hitchcock não se encontrou com Grace em Mônaco para lhe propor que voltasse ao cinema. O General De Gaulle não foi ao baile da Cruz Vermelha em que Grace, o filme mostra, tem a atuação de sua vida. Como Dahan, esclareceu, para seu drama ficar forte ele precisava de antagonistas em cena. E, como homenagem a Hitchcock, ele introduz uma intriga policial – o suspense – na sua trama romanesca e política. Tudo muito interessante, de verdade, mas a pergunta no ar era – por que esse filme para abrir Cannes? Pode ter sido simplesmente uma aposta de Gilles Jacob, o sr. Cannes, no glamour, para marcar sua última seleção, já que está se aposentando. Mas também pode ser algo mais. Um convite a que o público de Cannes esteja alerta. Muita intriga palaciana – na passagem de poder em Cannes? -, um apelo a que ninguém se fie nas aparências. O mundo, mais que nunca, vive o co0nceito dos Estados-espetáculos. É o tema de Olivier Dahan. A realidade virá daqui a pouco, com o africano Abderrahmane Sissako. Em Timbuktu, extremistas assumem o controle de um vilarejo em que um casal tem dois filhos. Amam-se, marido e mulher, mas não são casados. O conselho jihadista os condena à morte por lapidação. A pedradas. Este é o estado do mundo. O fausto principesco, o conto de fadas de Grace, não é só contraponto para iluminar o pesadelo de Timbuktu. O 67.º festival começou. Que seja grande.

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