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Diário de Cannes (19)

Luiz Carlos Merten

21 de maio de 2014 | 08h39

Festival de Cannes
CANNES – Em 1956, Douglas Sirk chegou a preparar, mas não dirigiu Nunca Deixei de Te Amar, que terminou sendo realizado por Jerry Hopper, na Universal. Procurando na rede, você vai encontrar a indicação de que o roteiro é creditado a Luigi Pirandello, mas o grande dramaturgo italiana morrera 20 anos. Teria de reler o livro com a entrevista que Sirtk deu a Jon Holiday para descobrir qual o vínculo do dramaturgo de Os Gigantes da Montanha e Seis Personagens à Procura de Um Autor com o filme.  O ponto de partida não poderia ser mais sirkiano – o cirurgião Rock Hudson reencontra a mulher, que julgava morta na 2ª Grande Guerra. Ele tenta reintegrá-la à casa, mas a filha não aceita a estranha, que ele apresenta inicialmente como sua nova mulher, a madrasta, portanto. No final, restabelece-se a verdade e mãe e filha, nos braços uma da outra, proclamam a frase do título. Embora Sirk não seja o diretor, o universo é dele – Rock Hudson, melodrama, a família. É curioso, mas pensei muito em Nunca Deixei de Te Amar – o filme era interpretadeo por uma tal Miss Cornell Borchers, que acho que nunca fez mais nada -, a propósito de Coming Home, o novo Zhang Yimou, que marca o retorno do cineasta à sua musa, Gong Li. No filme, fora de concurso, ela é casada com um dissidente que, durante a Revolução Cultural, foge do campo de reeducação. Ele tenta se aproximar da mulher e da filha, mas a garota é bailarina e sonha em fazer o papel de protagonista numa ópera popular maoísta. Ela denuncia o pai, a mãe surta, tem um trauma e não reconhece o marido quando, anos mais tarde, ele é reabilitado. Uma típica tragédia familiar sirkiana. O pai terá de perdoar a filha, reintegrá-la à mãe, mas a história não se soluciona. Ou melhor, termina mal, com os dois velhinhos, Gong Li e o marido, que nunca deixou de amá-la, como estranhos. Gostei demais do filme, que me proporcionou uma emoção estranha. Gong Li, que dá a cara a L’Oréal, uma das mulheres mais belas do mundo, nunca esteve tão desglamourizada e envelhecida, por conta do papel. Catherine Deneuve, no filme de André Techiné, L’Homme qu’On Aimait Trop, está totalmente senhora. Nada de glamour, nada de sexo. O tempo chegou para a bela da tarde, mas em Elle s’En Va, a idade não era empechilho para que vovó seguisse seduzindo. Tudo isso pode ser muito secundário num grande festival como Cannes, mas tenho a impressão que não. A última seleção de Gilles Jacob. Sob múltiplos aspectos, no olhar sobre a crise contemporânea, é como se estivéssemos assistindo ao fim de alguma coisa.

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