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Diário de Cannes (15)

Luiz Carlos Merten

19 de maio de 2014 | 21h09

Festival de Cannes

CANNES – Habemus Palmam. Já estamos na madrugada de terça-feira, aqui na França. É o sétimo dia do festival, que começou na quarta-feira passada. Tivemos bons e até grandes filmes premiáveis, como Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan; Timbuktu, de Abderrahmane Sissako; e o Foxcatcher, de Bennett Miller. Mas algo se passou agora à noite, quando ocorreu a sessão de imprensa de Ainda a Água, Still the Water, de Naomi Kawase. O filme começa com imagens de um mar borrascoso, e o cinéfilo com certeza se lembra de que o mar era um elemento decisivo a dificultar o transporte daquele piano no filme famoso de Jane Campion. Quase 30 anos depois de O Piano, ela permanece a única mulher a vencer a Palma de Ouro. Seu júri, pois ela é a presidente deste ano, é predominantemente feminino. Tudo isso pode reforçar o favoritismo de Naomi Kawase. Pois que reforce – ainda faltam filmes de autores importantes. Os Dardenne, Olivier Assayas, Ken Loach etc, mas Ainda a Água já foi para o panteão. Uma ilha açoitada pelo vento, mar agitado, um corpo que aparece na praia. Dois jovens, um garoto e uma garota. Ele descobre o morto. As histórias de ambos. O garoto, produto de uma família fraturada e o pai lhe pede que cuide da mãe. O jovem não entende a necessidade que ela tem de afeto, de sexo. A garota é produto de outra família, mais amorosa e harmoniosa, mas a mãe dela está morrendo. Vida e morte, o tempo, o vento, o amor, o sexo. E a água, o sacrifício. Duas cabras brancas são sacrificadas, vertem seu sangue. Uma, na abertura; a outra, quase no final. O que é o cinema? Um instrumento de revelação e compreensão do mundo, de compreensão de nós mesmos. Homens e mulheres, jovens e velhos. A natureza – uma árvore de 400 anos, o mar que esconde seus segredos. A morte é parte de um rito de passagem, celebrado com música. Cânticos, cantos.  Coisas muito boas ainda poderão surgir, mas, como a água e o vento de Naomi Kawase será difícil. Na saída, fomos jantar – Mariane Morisawa, Rodrigo Salem, Carlos Heli de Almeida. Nada como um grande filme, um bom vinho, uma conversa calorosa. Cannes hoje à noite tocou a perfeição para mim. O que vier a partir daqui é lucro.

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