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Diário de Cannes (11)

Luiz Carlos Merten

17 de maio de 2014 | 21h04

Festival de Cannes
CANNES – Recusado pela comissão de seleção do Festival de Cannes, Abel Ferrara resolveu criar um caso. Usando o quadro do festival, ele lançou ontem seu longa inspirado no affaire Dominique Strass-Kahn, Welcome to New York. O ex-diretor-gerente do Banco Mundial é interpretado por Gérard Depardieu e sua mulher, por Jacqueline Bisset. A exibição na Praia do Hotel Carlton foi seguida de coletiva com o diretor e o elenco. Depardieu virou um ogro, o próprio Shrek, como Faustão, nas tardes de domingo da Globo, se assemelha cada vez mais a Peter Lorre. Ferrara chegou de óculos escuros para a coletiva – nem se fosse vampiro, devia estar escondendo os olhos por algum outro motivo, quase meia-noite daqui (19 horas no Brasil). Já gostei de Ferrara, na época de Bad Lieutenant, que Werner Herzog refilmou. Entrevistei-o algumas vezes – aqui mesmo em Cannes, em Veneza. Sempre o vi muito acelerado. Ferrara nunca teve meias medidas. Ele fez o seu Lobo de Wall Street – sexo, poder e dinheiro nas proporções de uma tragédia shakespeariana. Nesse sentido, tenho de admitir que o filme dele é melhor – menos ruim – que o de Martin Scorsese, embora meio mundo vá reclamar da observação. Nas quatro cenas iniciais, Depardieu, com a barriga flácida tapando as partes pudentas, faz sexo como uma máquina. Sexo, digamos, convencional – papai/mamãe – na primeira; a mais violenta cena de sexo oral já filmada na segunda; e anal com duas moças corajosas, na terceira. Parabéns pela disposição. O próprio Depardieu fez blague. Disse que já tentou ter uma ereção em cena, mas na hora H… Ele fez o gesto de um braço dobrado e punho fechado (ereto?) e depois soltou o braço. Na quarta cena, a camareira entra no quarto, Depardieu sai do banheiro e salta sobre ela. Como ele conta depois à mulher, na cara dura, não fez sexo. Só quis ejacular na boca da criatura. Segue-se o affaire, propriamente dito. a intervenção da polícia, o indiciamento, o processo. Assistimos à destruição do homem público – Strauss-Kahn, que ia se apresentar como aspirante à presidência da França, cai mais vertiginosamente que o gesto de braço de Depardieu. Ele diz que nunca quis ser presidente, quem queria que fosse era a mulher ambiciosa. O casal tem cenas de diálogos fortes, que Jacqueline revelou – foram muito improvisadas pelos atores, em colaboração com o diretor. Depardieu disse que sua maior preocupação foi evitar a moralização. Todo mundo tem um monstro dentro de si – ele liberou o dele para tentasr entender Strauss-Kahn.  As mulheres são bitches, a palavrinha de quatro letras, ou bitches, carreiristas como a esposa. Vamos ver amanhã ou depois como a imprensa daqui reage – se Ferrara conseguiu criar o escândalo que queria, para levantar sua carreira. Uma coisa é certa – ele filtrou seu Scorsese, o Lobo, por Stanley Kubrick, A Laranja Mecânica. Como diretor do Banco Mundial, o protagonista tece considerações sobre o estado do mundo. Não chega a mostrar compaixão. Na fantasia futurista de Kubrick, Alex, submetido ao tratamento Ludovico, renuncia à violência, e o espectador torce para que ele a recupere, em nome da contestação ao ‘sistema’. Kahn, em Welcome to New York, sabe que está enfermo, mas não quer se recuperar. Não mostras o menor sinal de arrependimento. Fuck the world, fuck you – e Depardieu olha para a câmera. Nós, o público. Na última cena, o insaciável (anti)herói está de volta à caça, mas, ao contrário de Alex, no Kubrick, é pouco provável que o público vá torcer por ele.

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