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Diário de Cannes (10)

Luiz Carlos Merten

17 de maio de 2014 | 07h58

Festival de Cannes
CANNES – Cá estou no hotel, rapidinho, depois de assistir ao Saint Laurent de Bertrand Bonello e a caminho da coletiva do argentino Relatos Salvajes, que acho que vocês vão adorar, quando chegar aí ao Brasil. Havia gostado médio do Yves Saint Laurent de Jalil Lespert, muito polido para o meu gosto. Bonello assina seu filme mais chic, com muita ópera – Maria Callas – de fundo, mas ele não perdeu o gosto da sarjeta de seus filmes anteriores. E o que anda ocorrendo com esses rapazes? Brinco, naturalmente, mas depois de Wagner Moura em Praia do Futuro, cabe a Louis Garrel encarnar o amante mais tenebroso e sedutor de Yves. Os personagens são drogados e Garrel e Gaspard Uliel, que faz o protagonista, trocam um beijo de língua interminável, trocando de boca a pílula mágica que vai sumir, levando-os ao nirvana. Não resisto a reproduzir, dando crédito, a piada do Carlos Eduardo, de Londrina – Saint Laurent, o filme, nos brinda com a primeira overdog. Enquanto Garrel e Uliel fazem tudo a que têm direito – Maria do Rosário Caetano não vai se recuperar tão fácil, ao ver seu muso Garrel naquelas cenas picantes -, o cachorro do estilista come as pílulas que se esparramaram pelo chão e vai para o céu dos cães batendo as patinhas, sabe-se lá que visões tendo. O filme é sobre um homem que ama as mulheres, mas deseja os homens. O maior mistério de Saint Laurent, na arte como na vida, não é o que o impulsiona a criar, como a se destruir, mas Pierre Bergé. Há uma longa conversa em que Bergé discute com investidores norte-americanos o valor da marca YSL. Bonello mostra um artista que virou sigla e é forçado a entrar no ritmo industrial, mas também um homem que raramente permite (por Bergé, quem sabe) que suas pulsões mais selvagens se liberem. Achei o filme bonito, viscontiano – há uma homenagem a Os Deuses Malditos, do grande Luchino -, talvez um pouco longo, mas não me incomodei, como cheguei a me incomodar um pouco no começo do Nuri Bilge Ceylan, tenho de admitir. Aqueles planos lentos de paisagem de Winter Sleep, as ações fragmentadas. Saint Laurent admite que é um pintor frustrado. Sonha com Matisse e Mondrian, e o último desfile termina com a divisão da tela à Mondrian, muito sofisticado e interessante. Gostedi demais do elenco, e devo ter viajado legal, porque Uliel, em alguns momentos, me lembrou muito nosso Rodrigo Santoro. Estou indo para o argentino, mas não resisto a deixar com vocês uma interrogação. Mais do que ‘o que é o cinema?’, os filmes do 67.º festival parecem estar se perguntando ‘o que é o amor?’  Grace de Mônaco, uma atriz, só se encontra ao representar o papel de grande apaixonada. Saint Laurent pergunta á mãe – ‘Maman, tu m’aimes?’ – e não há resposta. Podemos imaginar, mas nunca saberemos se, de fato, havia amor – afeto – entre Bergé e Saint Laurent. É perturbador.

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