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Diário de Berlim Dia 9

Luiz Carlos Merten

28 de fevereiro de 2020 | 13h00

BERLIM – Foram apresentados agora pela manhã os dois últimos filmes da competição – Irradiés/Irradiated, do cambojano Ritty Panh, e There Is no Evil, do iraniano Mohammad Rasoulof. O primeiro é um documentário que atravessa o século 20 – 1.ª Guerra, nazismo, 2.ª Guerra, Hiroshima – para refletir sobre a dor que os homens conseguem infligir a seus semelhantes. Panh sobreviveu ao horror do Khmer Rouge, que lhe deu essa percepção do que há de pior no homem. Uma frase no filme – não há nada mais baixo que o homem na Terra. Panh utiliza duas vozes para o seu recitativo,. e uma delas é de André Willms, o ator do Louis Garrel, Le Sel des Larmes. Fui induzido ao erro porque numa ficha do festival o nome de Willms aparecer primeiro, e eu o tomei pelo fiolho, quando é o pai – o filho, com suas três mulheres, é Logann Antuofermo. Não só pelas duas vozes, o recitativo evoca Alain Resnais, Hiroshima, Meu Amor e Panh ainda utiliza imagens dos danos físicos provocados pela explosão atômica, e pela radiação, que já estavam naquela obra-prima. Panh não é só um grande cineastas. É um grande artista visual e utiliza imagens de arquivo, texto e trilha para compor uma peça única, um poema de horror? Impressionei-me. Apenas uma hora de intervalo, para correr à coletiva de Irradiés, e já estava de volta ao Palast pára ver o último filme da Wettbewerb, a competição. Não fazia ideia do que ia ver, e por isso hesito um pouco sobre o que, ou como, escrever, porque gostaria que fossem fossem(sejam?) impactados pelo filme como eu fui. Um relato em quatro episódios, uma discussão sobre moralidade e pena de morte. O que ocorre quando as pessoas aceitam, literalmente, ser carrascos. Um homem que mata, outroi que não. Outro homem que mata, um quarto que não. Quais os efeitos dessa recusa moral? No Irã, cabe ao Exército, a soldados escolhidos por seus superiores, ou que se voluntarizem, aplicar a pena de morte. Quem são esses homens? Confesso que nunca tinha visto um filme iraniano como esse, tão duro na crítica aos procedimentos legais da República Islâmica. Não é um problema localizado. Em toda parte, inclusive no Brasil, temos tido evidências, até provas, de condenações políticas, sem provas cabais. E depois da aplicação da pena de morte, sem volta possível, como ficam as coisas? Achei o filme perturbador.