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Diário de Berlim Dia 8

Luiz Carlos Merten

27 de fevereiro de 2020 | 21h14

BERLIM – Gostei muito do Hong Sangsoo, da Eliza Hittman. Mas foi no oitavo dia do festival que tive minha epifania. Com o Tsai. A competição termina na sexta, 28, com filmes do Camboja e do Irã. No sábado teremos a premiação, no domingo, a reprise dos vencedores de todas as seções. Ainda não vi o Ritty Panh, nem o Mohammad Rasoulof, mas me encantei com Days/Dias. Um daqueles filmes que, pára mim, é tudo, e que um amigo português considerou nada.
Competição
Quem acompanha a trajetória de Tsai Ming-liang sabe de sua particular relação com o tempo. Days começa com um plano longuíssimo de um cara que olha a chuva. É interpretado pelo ator fetiche do autor de Taiwan, Lee Kang-Sheng. O plano seguinte, que também dura minutos, mostra de novo Lee na banheira, de olhos fechados. Logo em seguida vem o Anong Housheuangsy, um não profissional que Tsai descobriu na Indonésia, por meio de um vídeo em que ele cozinha. Em planos também intermináveis, Anong lava as verduras, e depois cozinha. Câmera parada, atores que também pouco se movimentam – exceto quando é para marcar o tempo -, ausência quase total de diálogos. Os personagens, o homem maduro e o garoto, não se conhecem. Encontram-se quando o garoto vai à casa de Lee para fazer-lhe uma massagem, que vira sexo. É prostituto. Com a maior serenidade, Anong disse que o personagem é ele. Um trabalhador do sexo? Um documentário? Um filme nas bordas. Lee também disse que anos atrás teve um problemas de saúde e que Tsai acompanhou-o com a câmera no tratamento, como faz aqui, em outra cena que parece durar horas. Enfatizo a questão do tempo, mas não é para assustar. Tsai deixa toda liberdade ao espectador para se projetar, ou não, na sua mise-en-scène. Filma sem roteiro, mas sabe o que que quer, como quer, porque quer. Histórias de solidão. Passado o sexo, Lee e Anong seguem cada um seu caminho. Lee dorme no que parecem horas. Acorda e olha para… O vazio infinito de sua vida? Mas para o garoto alguma coisa mudou, graças a uma caixa de música que toca um tema de Charles Chaplin, Smile. Surtei. O Urso? quem sabe.
Saí do Tsai pisando em nuvens. Resolvi ir à coletiva. Tive de correr para o Regent Hotel para terminar as entrevistas de The Roads Not Taken. Salma Hayek, Elle Faning, a diretora Sally Porter. Com Salma foi um reencontro. Lembrei sua primeira vez aqui na Berlionale, que também foi a minha. Ela, uma estrelinha mexicana, apresentava El Callejón de Los Milagros. Salma viajou, e pegando carona no título seguiu o caminho inverso – The Roads Taken -, refletindo sobre a trajetória que a trouxe de volta a Berlim. Ellen é um encanto, 21 aninhos, e no filme o pai é revelado pelos olhos dela, a filha que o server, totalmente dedicadas. Sally Potter inspirou-se numa história de família, uma forma de demência degenerativa, que não tem nada a ver com Alzheimer, nem Parkinson, e que atingiu seu irmão. Ela é tão séria, culta, inteligente e delicada que fiquei me sentindo culpado por não haver gostado do filme.
Retrospectiva
Com tantos filmes brasileiros e a competição, todo mundo surpreende-se quando digo que estou indo ver algum filme de King Vidor, homenageado com uma retrospectiva de 37 de seus 54 filmes. Não estou vendo tantos quantos gostaria, mas revi Duelo ao Sol e Mãe Redentora/Stella Dallas e assisti hoje, pela primeira vez, a A Cidadela. Andava muito querendo reler A.J. Cronin, mas não encontro seus livros no Brasil. A Cidadela, com Robert Donat e Rosalind Russell, é sobre um médico idealista que se corrompe e mercantiliza, mas reencontra a integridade do jovem que foi. É um tema que mexe muito comigo. Quero sempre crer, não importam as decepções e as pauladas que recebo da vida – mas é assim com todos, não? -, que mantenho meu coração de estudante.
Generation 14Plus
Depois de filmes, entrevistas e textos para o jornal, corri a Alexanderplatz, a praça de verdade, com sua torre, para ver no Cubix outro brasileiro. Outro? O melhor – Meu Nome É Bagdá, de Caru Alves de Souza. Garotas da periferia no Clube do Bolinha do skate. Mulheres causando nas ruas, definindo seu espaço. De todos os meus anos de Aurora, e Tiradentes, os filmes que permanecem comigo – sempre! – são Estrada para Ythaca e A Vizinhança do Tigre. Afonso Uchôa, e depois de toda a tragédia a imagem inesquecível daqueles skatistas se apropriando da rua. Conscientemente, ou não, Caru inverte o gênero, mas mantém o espírito. As novas mulheres, donas da rua. Juro que chorei, tamanha foi a emoção.

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