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Diário de Berlim Dia 4

Luiz Carlos Merten

24 de fevereiro de 2020 | 12h06

BERLIM – Meu domingo foi tão corrido que não tive tempo de postar. Pela manhãs, tinha as entrevistas de Todos os Mortos, com os diretores Marco Dutra e Caetano Gotardo, mais as atrizes, incluindo Leonor Silveira. Gostei de muita coisa do longa brasileiro da competição, mas não é uma adesão entusiasmada, de primeira hora. Todas as Horas é um filme que precisa ser decantado. Tem camadas. É ambicioso, o que é diferente de pretensioso. Dar conta do Brasil numa narrativa de época que se passa na São Paulo contemporânea encerra um, duplo desafio – para os autores e para nós, o público. Variety achou o filme rarefeito e, dada a atitude hostil do governo Bolsonaro face ao cinema de arte do País e à cultura negra, lamentou que não esteja abraçando All the Dead Ones – título internacional – com mais entusiasmo. O quadro de cotações de Screen foi mais generoso – cotação máxima para um crítico chinês (quatro estrelas), duas vezes três estrelas (para críticos da Alemanha e da Inglaterra).
O alemão Christian Petzold situa sua recriação do mito grego de Ondina no quadro de uma Berlim em transformação. Undine é sobre essa mulher que, como a sereia da mitologia, ama possessivamente e mata o amante infiel. O mito inspirou o conto de Hans Christian Andersen, A Pequena Sereia, que está na origem da animação da Disney. Encontrei Jean-Thomas Bernardini, da Imovision, e ele me disse duas coisas – comprou o Petzold para o Brasil e tentou comprar o Persian Nights, mas os distribuidores norte-americanos fizeram um leilão do filme de Vadim Perelman, jogando o preço lá em cima. Jean-Thomas havia lido o blog e concorda comigo, mas teremos de esperar que o preço baixe, ou então que o filme chegue ao mercado brasileiro via Hollywood – isso se as Majors não estiverem comprando Persian Nights para refilmar.
À noite, como batiam os horários do Abel Ferrara (Siberia, na competição) e Nardjes A (Panorama Dokumente), preferi ver o brasileiro. Foi uma das sessões mais movimentadas e ruidosas dessa Berlinale. O próprio filme, sobre o movimento que ficou conhecido como a revolução do sorriso e derrubou o governo de Abdelaziz Bouteflika na Argélia, é sobre a euforia de um povo que descobre a sua força nas ruas. Tem o subtítulo de Um Dia na Vida de Uma Ativista Argelina, e ela é a Nardjes do título – que veio a Berlim com o diretor. Nardjes maquia-se para ire à rua com seu cartaz como se fosse para uma festa. É uma festa, terminando numa balada. A sessão, com Q+A, terminou quase meia-noite e eu vim para o hotel com a cabeça a mil, tentando comparar a Argélia com o Brasil nas ruas, quando a direita convocou o povo naquela onda amarela usada para legitimar o impeachment e pavimentar o caminho de Bolsonaro para o poder. Nardjes és bom de ver, e debater. Espero que Karim leve sua protagonista para o lançamento no Brasil. O discurso de Nardjes é em defesa da democracias, da liberdade e da inclusão. Ódio, não.