As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Diário de Berlim Dia 2

Luiz Carlos Merten

21 de fevereiro de 2020 | 13h56

Competição

Chegaram os primeiros dois concorrentes ao Urso de Ouro da 70.ª Berlinale. O italiano Volevo Nasconderme, de Giorgio Diritti, desde logo candidata Elio Germano ao prêrmio de melhor ator. Se fosse um ator de língua inglesa já estaria no Oscar de 2021. Sua transformação física é radical. O personagem que quer se esconder é Antonio Ligabue, que atravessou o fascismo como grande solitário – ou grande revolucionário – da pintura italiana. Filho indesejado – foi rejeitado pelo pai -, ele sofreu bullyng na escola, foi internado como louco. Pintou autorretratos expressionistas à maneira de Van Gogh. Sonhava com uma vida ‘normal’ – casa, mulher -, mas ela lhe foi negada. Criado como um garoto selvagem, à maneira de François Truffaut, encarnou o enigma de Kaspar Hauser (o personagem de Werner Herzog). Viveu uma vida difícil, sofrida. Diante do preconceito – por ser ‘diferente’ -, berrava “Sou um artista!”

Também na competição, o argentino/mexicano El Prófugo, de Natalia Meta, reabre a vertente do cinema de gênero. Um thriller erótico fantástico. Uma mulher atormentada por pesadelos passa por uma experiência traumática, que acirra seu distúrbio do sono. Os pesadelos se tornam mais e mais constantes. Realidade e fantasia misturam-se, as pessoas ao seu redor são projeções que querem dominar sua mente? Inés, a personagem, é dubladora e cantora de ópera. Natalia quis fazer o seu fantasma da ópera? A pergunta que não quer calar – por que esse filme está na competição? Uma possível justificativa. Tem ecos de David Cronenberg de Gêmeos, interpretado pelo presidente do júri, Jeremy Irons. Será…?

Animação

Berlim acolheu a produção da Disnery/Pixar, Onward. No Brasil vai se chamar Dois Irmãos, Uma Jornada Fantástica, devendo estrear em 5 de março. Dois irmãos embarcam na tal jornmasda, em busca do pai, que morreu. Ele era mágico.Reencontrarão, os adolescentes, a magia num mundo para o qual ela perdeu o sentido? Em busca do pai, eles fortalecem a união – a fraternidade. O diretor Dan Scanlon veio falar do trabalho com os atores Tom Holland e Chris Pratt. Contou como esse projeto era pessoal para ele. Scanlon e o irmão perderam o pai quando meninos. Conheciam-no de filmes familiares – mudos. Um dias, um tio lhes enviou uma cassete, com a voz do pai. Duas palavras, apenas – ‘Olá!’ e ‘Adeus’. Foi a origem de tudo. O repórter, feito manteiga derretida, admite que chorou.

Retrospectiva

A Berlinale está homenageando King Vidor com uma grande retrospectiva. O festival exibe 37 dos 54 filmes que ele fez. São clássicos desde 1919 até 1959. Para começar, passa daqui a pouco um western que sempre desconcertou os puristas – Duelo ao Sol. Como Caim e Aberl, os irmãos Gregory Pek e Joseph Cotten brigam por amor a Jennifer Jones. O duelo final, uma instituição do gênero, é entre homem e mulher. Peck e Jennifer disparam suas pistolas até a morte. Em 1947, o rei Vidor descarregava torrentes de erotismo na tela. Um clássico.

Hollywood em Berlim

Johnny Depp, Johnny Depp, Johnny Depp. Em Minamata, ele faz o fotógrafo que revelou ao mundo o horror da contaminação de uma baía, no Japão, com dejetos de mercúrio lançados por uma empresa em suas águas. O mercúrio produziu deformidades físicas que W. Eugene Smith documentou com suas lentes. A coletiva foi marcada pela correção política e defesa do meio-ambiente. Johnny Depp virou ambientalista. Na coletiva, a tietagem correu solta. Na saída do hotel (Hyatt), uma multidão esperava para ver ‘Johnny’. Pelo menos aqui em Berlim, ele é top de linha.

Brasil

Daqui a pouco ocorre a primeira sessão de Cidade Pássaro, de Matias Mariani. Variety, na sua edição desta sexta, aproveita para dedicar extenso material à situação do cinema brasileiro, com direito a foto (grande) do presidente Jair Bolsonaro como o homem que está desmontando as estruturas do cinema no País.

Tendências: