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Diário de Berlim Dia 10

Luiz Carlos Merten

29 de fevereiro de 2020 | 07h19

BERLIM – Meu décimo dia, o do gran finale, que vai culminar com a atribuição, à noite, dos prêmios pelo júri internacional, na verdade talvez tenha começado ontem, com o prêmio da crítica para Undine, de Christian Petzold, e o da mostra Generation 14Plus para Meu Nome É Bagdá, de Caru Alves de Souza. Fiquei feliz pelo Jean-Thomas Bernardini, que comprou o filme do Petzold para o Brasil (Imovision) e deve exibi-lo no circuito da Reserva Cultural. Para um distribuidor e exibidor que opera no registro da exceção, do cinema de arte, é bom poder acrescentar um prêmio de prestígio, como o da Fipresci/Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica, às suas atrações. Mas não estou muito de acordo com o júri integrado pelo venerando Michel Ciment, da Positif. Por desigual que tenha sido a seleção de Carlo Chatrian, havia filmes melhores, inclusive como ousadia da proposição de linguagem, para premiar na Wettbewerb, a competição. O Tsai Mingg-liang, a Eliza Hittman, o Hong Sangsoo, que me encantou tanto. Kim Minhee reencontra o ex na saída do cinema e o diálogo inconclusivo deixa no ar que a história entre eles talvez não tenha terminado completamente, apesar da separação. Ela volta à sala e o filme mostra apenas o mar batendo num arrecife, sem nenhum vestígio humano. Não comentei com ninguém, nem no blog, mas não pude deixar de pensar em Carlos Adriano e seu magnífico Remanescências, uma das jóias, e talvez ‘a’ joia do cinema experimental brasileiro. Os 11 fotogramas que restaram da primeira filmagem realizada no Brasil, por José Roberto Cunha Salles. O mar batendo no píer da baía de Guanabara, as imagens trabalhadas, ressignificadas, estetizadas até lograr a duração de um curta de 18 min que trabalha com as sensações. Ecos do mítico Limite, o mar de Mário Peixoto, e o que vou fazer se nunca consegui entrar no mistério daquele filme?
Enquanto jantava com amigos, ontem no fim da noite, Caru Alves de Souza ganhava o que espero que não seja o único prêmio do Brasil na Berlinale de 2020. Pela longa duração, confesso que não consegui encaixar o filme da Paula Gaetán, Luz nos Trópicos, na minha programação, mas vi todos os demais – menos os curtas, admito – e quem me segue no blog sabe que o que de mais gostei foi Bagdá. Escrevi isso depois de ver o filme da Caru e me emocionar com aquelas garotas empoderadas da periferia, rolando seus skates, como os boys mineiros d’A Vizinhança do Tigre. Acho que nunca me sentei para conversar com o Affonso Uchôa, discutir seu cinema, mas não importa. Isso um dia vai ocorrer. Ele deve saber, pelo blog, do meu amor imenso pelo Tigre, por Arábia e por Sete Anos em Maio. A voz da periferia, as dificuldades da classe trabalhadora, que não está indo para o paraíso. A voz das mulheres de Caru, a forma dura como Bag enquadra o garoto que tentou forçá-la. Não é não! Hgostei muito – muito!- de Meu Nome é Bagdá, e fiquei feliz com essa vitória. Que venham outras.

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