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Diário de Berlim Dia 1

Luiz Carlos Merten

21 de fevereiro de 2020 | 13h52

(Esse texto foi redigido ontem e enviado ao jornal, mas se perdeu. Vou fazer o Diário no blog).

Competição

Começou! O 70.º Festival de Berlim iniciou-se na manhã desta quinta, 20, com jornalistas de todo o mundo, aturdidos, correndo de um lado para o outro. Não foi a só a curadoria que mudou, Carlo Chatrian, ex-Locarno, assumindo o posto de Dieter Kosslick. A mudança é geral – de horários, lugares, práticas consagradas. É como se a Berlinale estivesse (re)começando. Alemanha, Novo Zero – um título que remonta a um filme de Jean-Luc Godard.

O longa de abertura, embora integrado à competição, passa fora de concurso – como Berlinale Special. My Salinger Year, de Philippe Falardeau, começa com uma pegada a O Diabo Veste Prada. A história da garota interiorana que chega a Nova York sonhando ser escritora e vai trabalhar numa editora de prestígio, como assistente. Margaret Qualley, que faz o papel, até é parecidinha com Anne Hathaway e Sigourney Weaver, como a editora sênior, quando surge, parece uma diaba como Meryl Streep no longa de David Frankel. Nada a ver. A pegada é outra. Margaret é destacada para assessorar o mítico J.D. Salinger, autor de O Apanhador no Campo de Centeio. O escritor isolou-se, recolheu-se, e sua função é servir como sua ligação com a editora. Uma sombra. Sem elo nem intimidade, ela deve responder – sucinta e neutramente – a volumosa correspondência a ele endereçada. No processo, Johanna, é seu nome, cresce, amadurece, cria vínculos, inclusive com ‘Jerry’ (Salinger). É um ‘feel good movie’. Cute – bonitinho. Independente, mas com cara de filme de estúdio. Um bom começo para a Berlinale de 2020.

Especial

Na verdade, embora seja o filme de abertura, e a gala será daqui a pouco – Berlim está quatro horas adiante do Brasil -, My Salinger Year foi o segundo filme do dia psara a imprensa. O primeiro foi o Jia Zhangke, Swimming Out till the Sea Is Blue. O título enigmático – Nadando até Que omar Fique Azul – faz todo sentido quando se vê o filme. É um documentário. Nos últimos anos, e em chave de ficção, Jia tem prosseguido com suas análises sobre as mudanças da sociedade chinesa pelo viés do cinema de gênero. São filmes que têm defensores, mas não representam o melhor de sua obra. Swimming/Nadando é um belo Jia, até grande.

Três personagens, de diferentes gerações, contam suas histórias diante da câmera. E tudo começa no final dos anos 1940, na aldeia da família de Jia. O solo é alcalino, a agricultura é inviável, as pessoas passam fome. Unem-se para resolver o problema. Os descendentes daquela primeira geração que deu duro viram intelectuais – escritores – e usufruem das benesses da economia que transformou a China em potência mundial. Histórias de família, de renúncias, de sacrifício, de afeto, que o autor narra em chave operística, seja a ópera popular chinesa ou a ópera ocidental. Há um tanto de nostalgia em todas as histórias. O escritor lembra o mar de sua infância, amarelado. Lembra de nadar, ou de se deixar levar pela corrente, até que o mar ficasse azul. No final, a corrente o devolvia à praia. Há uma metáfora sobre a China, o longo caminho percorrido até aqui, no novo Jia. O filme chega num momento crítico, quando o país é acusado de isolar-se e de controlar as informações sobre o coronavirus.

Júri

Tradicionalmente a coletiva do júri semnpre se realizou à tarde, mas este ano foi deslocada para o manhã. O presidente Jeremy Irons e seus jurados, incluindo o diretor/autor brasileiro Kleber Mendonça Filho. Muita gente estranhou a presença de Kleber – sua carreira, afinal, está muito mais ligada a Cannes. O diretor artístico Carlo Chatrian já disse que selecionar Kleber foi uma forma de manifestar preocupação pelo que se passa com, o cinema brasileiro. Internacionalmente, e a par da excelência de seu cinema, Kleber é sempre lembrado pelo protesto contra o impeachment, na escadaria de Cannes, em 2016, no ano de Aquarius. Kleber teve de falar duas ou três vezes sobre a situação brasileira. Repudiou o desmanche da cultura – e do cinema – pelo governo. Mister president foi soberano – ator refinado, Jeremy Irons manifestou respeito pela liberdade de expressão. Disse o que, em geral, dizem os presidentes de júri – quer ser surpreendido. Nós, jornalistas de todo o mundo, também.

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