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Diário da Croisette (8)

Luiz Carlos Merten

17 de maio de 2013 | 20h12

CANNES – Vivi hoje emoções muito fortes, aqui em Cannes. Na Croisettte, Cinéma de la Plage tem sido prejudicado por causa da chuva, mas hoje, apesar do vento, passsou um filme que integra meu imaginário. O Homem do Rio foi realizado por Philippe De Broca acho que em 1964, após Cartouche, também com Jean-Paulo Belmondo, que formava dupla com Claudia Cardinale  e eu teria de pesquisar para saber se precede ou sucede a Caminho Amargo, La Viaccia, que Mauro Bolognini adaptou de Vasco Pratolini e no qual Belmondo faz Amerigho e Claudia, Biancsa, a mais bela prostituta de Florença. Como esquecer O Homem do Rio quando se tem 17 anos e uma mente sonhadora? Eu amava De Broca, o comediógrafo da nouvelle vague. Apesar da minha admiração por Eric Rohmer, não seria capaz de repetir uma linha de seus diálogos nos Contos Morais, ou nas Comédias e Provérbios. Nunca vou me esquecer de François Périer, dizendo aos filhos que perguntam pela mãe, Jean Seberg, e ela o está traindo com Jean-Pierre Cassel – o pai de Vincent -,  em O Amante de Cinco Dias. “Mamãe tem de se equilibrar nos saltos altos para caminhar e isso a retarda para voltar para casa.” Vi O Homem do Rio, que tem um quê de pré-Indiana Jones, e me encantei de novo com Françoise Dorléac, a irmã de Catherine Deneuve, que morreu carbonizada num acidente de carro. Catherine teve o privilégio de sobreviver, mas ela não estava no carro, e ainda trabalhar com todos aqueles grandes diretores, mas um dia, numa das primeiras entrevistas que me deu, ela finalmente falou na irmã e disse – talvez seja a saudade dos que partiram – que Françoise era melhor que ela. E a minha noite ainda teve o Kore-eda, Tal Pai tal Filho. Um casal é chamado ao hospital em que a mulher deu à luz e descobre que houve uma troca de bebês. O pai diz a frase fatal – isso explica tudo, donc. Ele é workaholic e o filho parece ter mais a doçura da mulher. Não é seu filho, como ele não percebeu? O caso é levado à Justiça, que propõe a troca das crianças. Mas como se pode trocar alguém a quem você amou como filho por 6 anos? Esse pai tem medo de amar, e de ser amado. Não consegue criar laços com o novo filho. Quando a mulher lhe diz que está amando a criança e se sente culpadas por isso, como se estivesse traindo o outro filho, algo se passa. A maneira mais fácil de ver Tal Psi tal Filho é como a condenação de um comportamento glacial associado à competitividade do mundo moderno. O outro pai tem menos dinheiro, seria até um derrotado aos olhos do ‘sistema’, mas se dedica mais aos filhos, e ao novo filho, que a mulher e ele acolhem de braços abertos. Imagino que alguém vá dizer que se trata de cinema dos sentimentos – e vai agradar ao presidente Steven Spielberg -, mas a dissecação dos personagens me pareceu tão concentrada, e densa, e real, que viajei na história. Chorei – claro. E agradeci por estar sozinho no fim da sessão. Pude flanar nos meus pensamentos. E, no fundo, tive uma espécie de euforia pelo privilégio de estar aqui, vendo em primeira mão esses filmes e tentando passar minhas experiências para vocês. Hirokazu Kore-eda tem feito filmes sobre a moderna família japonesa, sobre a ausência da mãe, ou do pai. Yasujiro Ozu filmava a família tradicional, destruída pelas transformações do Japão após a 2.ª Guerra. Há um filme de Ozu aqui em Cannes Classics, Dia (ou Tarde) de Outono. Muitos filmes do festival têm usado as estações para metaforizar o tempo – o de François Ozon, Jeune & Sexy, por exemplo. Outros têm trocado os pontos de vista. O próprio Ozon revela sua protagonista pelo olhar do irmão, depois da mãe. Isso não chega a ser revolucionário, mas quebra regras e, de alguma forma, através do outro, introduz a diversidade. Tal Pai tal Filho tem essas trocas. Depois de três dias de festival já é possível ver como os filmes da seleção, ou das seleções, se encaixam. E eu tenho gostado de algumas coisas. Muito, mesmo.

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