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Diário da Croisette (7)

Luiz Carlos Merten

17 de maio de 2013 | 15h27

CANNES – Vocês me desculpem pela ausência de posts até agora. Já são 8 da noite aqui na França e o dia hoje foi muito corrido. Tinha o filme de Asghar Farhadi de manhã, e eu que, desde a primeira hora defendi Procurando Elly e A Separação, desta vez não gostei. Outro filme sobre separação, sobre culpa e responsabilidade, mas desta vez o autor iraniano abre tanto o leque, quer falar de tanta coisa que, no final, me deu a impressão de perder o foco, senão exatamente o rumo. Tive na sequência as entrevistas de Jovem e Sexy, tenho a impressão de que escrevi Bela e Sexy ontem. Gosto de François Ozon e é sempre um prazer falar com ele, mas diante de Marine Vacth tive a sensaçãso de entrar numa máquina do tempo e retrocedi 18 anos, quando vi nascer outra estrela aqui em Cannes – a Liv Tyler de Beleza Roubada, de Bernardo Bertolucci, em 1995. Que coisa! Tive também a rádio, tive de correr atrás de informações sobre o grande roubo de jóias – um funcionário da Chopard foi assaltado em seu hotel e os ladrões levaram US$ 1 milhão em jóias. A joalheria é parceira do festival – produz a Palma de Ouro – e a organização  já fez saber que a Palma deste ano está a salvo e será entregue pelo presidente Steven Spielberg no domingo, dia 26. Assaltos mexem com a gente e eu logo comecei a divagar sobre quem vai filmar esta história. Hollywood? Os próprios franceses?  Viajando na imaginação, lembrei-me de Ladrão de Casaca, que Alfred Hitchcock filmou aqui mesmo na Côte d’Azur, sendo o cupido de Grace Kelly e seu príncipe. Lembrei-me também da Femme Fatale de Brian De Palma, outro roubo de jóias, esse em Cannes (e no interior do palais). Basta me lembrar e vem o fetiche – a loira, hitchcockiana, que corre de salto alto, e o som vai aumentando na trilha até martelar na cabeça da gente. As emoções não pararam por aí. Fui ver L’Inconu du Lac, de Alain Guiraudie, na mostra Un Certain Regard. Antes do filmre, Michel Pìccoli. Ele estava na sala porque daqui a pouco apresenta a versão restaurada de A Grande Comilança, de Marco Ferreri, em Cannes Classics. A ovação para o velhinho foi uma coisa linda, um daqueles momentos que valem a pena não apenas testemunhar, mas se juntar na celebração. E logo o filme – cruising, caçadas gays numa praia de naturistas. Homens pelados, sexo hard (e põe hard), oral, penetração, espermsa ejaculando. Juro – no começo é punk, mas logo tem um assassino ali na praia e o protagonista sabe quem é, mas se excita com o cara. É preciso coragem para mostrar um filme desses, mas o Guiraudie acerta o tom e cria um clima de suspense no limite do angustiante. Você se esquece das chupetas, das masturbações, do nu frontal e ostensivo. Fica só… O quê? A perturbação, o medo. O medo do que as pessoas, os homens, fazem uns aos outros. Lembram-se do som do vento nas árvores do parque de Michelangelo Antonioni em Blow-Up? Preparem-se para o vento de L’Inconu e para o murmúrio da água (é um lago). O aplauso foi consagrador, o maior a um filme, até agora. Até Michel Piccoli se juntou ao coro. E ainda veio o japonês Hirokazu Kore-eda. Like Father, Like Son. Quer coisa mais spielbergiana? Que dia! E amanhã tem mais!

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