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Diário da Croisette (23)

Luiz Carlos Merten

25 de maio de 2013 | 07h20

CANNES – E a competição do 66.º Festival de Cannes terminou, como dizem os franceses, `en  toute beauté`  No último dia, veio um belo filme de Roman Polanski, o melhor do diretor desde O Pianista, e isso inclui obviamente O Escritor Fantasma, que ganhou, um tanto excessivamente para mim, todos aqueles prêmios. La Venus a la Fourrure baseia-se numa peçaa de David Ives, por sua vez adaptada do livro de Sado-Masoch. Logo na abertura, dá para perceber que será uma coisa especial. Sob um céu de chuva, a câmera avança por uma rua iluminada por relâmpagos, até chegar a um teatro. A música de Alexander Desplat cria o clima (obsessivo? Angustiante? Jubilatório?). A câmera entra pelo saguão, pela platéia – e logo Emmanuelle Seigner, mulher do dfoiretor, aparece como a atriz que vem fazer um teste. Ela convence o próprio ator da peça, interpretado por Mathieu Amalric, a lhe dar a réplica, porque chegou tarde e todo mundo já foi embora. Mathieu resiste – ela lhe parece vulgar, inadequada.  E aí há esse momento que Polanski diz que foi o que o inspirou a fazer o filme. Emmanuelle começa a falar o texto e, imediatamente, magnetizado pela voz, Mathieu se volta para ela. Sua vida nunca mais será a mesma. Polanski disse na coletiva que vem ao Festival de Cannes desde que era estudante de cinema. Divertia-se muito mais naquele tempo, porque podia andar incógnito pela Croisette – pela cidade -, sem que os fotógrafos corressem atrás dele. Cannes é a Meca do cinema, resumiu. O filme é sobre dominação e submissão. Mathieu, o autor/adaptador, começaa o filme numa situação de superioridade em relação a Emmanuelle, mas ela inverte o jogo e ele termina dominado por ela (e até travestido, como outros personagens de Polanski). Gostei demais dessa visão sulfurosa das relações do casal e acho que Polanski oferece à mulher seu melhor papel. Emmanuelle Seigner nunca foi mais bela nem melhor atriz. E posto que o filme foi feito para ela, Polanski o fez em frances, para que Emmanuelle pudesse expressar toda a dimensão do papel (que ele achou que ela perderia em inglês). Em seu longa de estréia, A Faca na Água, Polanski filmou três personagens num barco. Aqui, ele encara o desafio de filmar apenas dois, num teatro. Só que esses dois, na verdade, são quatro – a atriz, o autor e os personagens da peça. Creio que o filme de Polanski desestabiliza um pouco o quadro que vinha sendo traçado na competição. Continuo fiel a Abdellatif Kechiche e a sua admiravel atriz, Adèle Axerchopoulos, por A Vida de Adèle, mas não me admiraria se o filme de Polanski irrompesse vitorioso no Palmarès. É muito bem dirigido. Um prêmio de mise-en-scène? Do júri? Queria acrescentar logo o post. Preciso assimilar melhor esse filme complexo, mas já queria deixar lavrado que gostei demais do novo Polanski.

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