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Diário da Croisette (18)

Luiz Carlos Merten

22 de maio de 2013 | 21h36

CANNES – Fiz hoje entrevistas bem bacanas com Hany Abu Assad – o diretor de Paradise Now mostrou aqui seu novo filme, Omar, que está em Um Certain Regard, mas bem que deveria estar concorrendo à Palma de Ouro – e também com Jamel Beddouze, Chiara Mastroianni, Vincent Lindon e a diretora Claire Denis. Chiara contou que acaba de fazer o novo filme, uma comédia, de Xavier Beauvois, inspirada nos jovens que violaram a sepultura de Charles Chaplin para roubar seu corpo, e eu lembrei que há uns 20 anos, Xavier e ela estiveram em São Paulo, participando da Mostra com um filme dirigido por ele, N’Oublie pas Que Tu Vas Mourir. Chiara fazia cinema mas ainda não era ‘atriz’. Natural que, naquele tempo, todo mundo estivesse mais interessado em falar com ela sobre seus pais, Marcello Mastroianni e Catherine Deneuve. Isso irritou Xavier, que ficou agressivo e eu nunca me esqueci de Chiara dizendo ao companheiro – viviam juntos naquele tempo -, ‘Arrête, Zavier’ (o X tem som de Z, no caso). Anos depois, achei o cara tão arrogante durante as entrevistas de Homens e Deuses – como se tivesse feito o melhor dos filmes -, que continuava pensando comigo, ‘Arrête, Zavier’ (e ele não parava). Por conta de tantas entrevistas, e textos – a capa de amanhã do Caderno 2 -, limitei-me a quatro filmes, apenas. Only God Forgives, Omar, que vi no mercado, o Kechiche agora à noite e, ao meio dia – e por isso quase perdi a entrevista com Hany Abu Assad -, All Is Lost, de J.C. Chandor, com Robert Redford. Ele é o único ator em cena, não diz uma palavra – no máximo, uma imprecação, ‘Fuck!’ -, mas achei interessante que Redford tenha vindo para o tapete vermelho, justamente neste ano em que o festival celebra, em seu cartaz, Paul Newman. Se houve uma dupla perfeita no cinema, foram eles – Newman & Redford, imortalizados em Butch Cassidy e Golpe de Mestre. O filme de Chandor foi um dos mais aplauididos, senão o mais aplaudo nas sessões de imprensa. Não concorre, porque senão imagino que seria o preferido de boa parte da imprensa internacional. Como se faz um filme que não é mudo, mas sem diálogos? Temos o precedente de O Artista, por exemplo, mas All Is Lost é outra coisa. Começa com Redford despertando bruscamente. Ele está num barco, em alto mar, a embarcação chocou-se com um container à deriva no oceano e começa a fazer água. A situação só vai piorando. O barco afunda, Redford vai para uma balsa, que é jogada para lá e para cá pelos ventos de tempestade. Ang Lee fez história com As Aventuras de Pi, mas aqui não existe o tigre, só Redford, lutando contra o que parece inevitável. E, então, quanto tudo parece perdido… Tãtãtã. Há muito de tecnologia digital no mar de All Is Lost e a história com certeza tem pontos de apoio com a de Santiago, em O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. Santiago, tentando pescar aquele peixe, recita solilóquios que falam de vida, solidão, morte. Spencer Tracy era quem fazia o papel na adaptação de John Sturges. Robert Redford não fala nem tem monólogos interiores. Não tergiversa sobre a vida e a morte. Ele simplesmente está em cenas lutando e, num momento, desistindo.  Acreditem que é uma experiência que vale compartilhar.

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