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Diário da Croisette (17)

Luiz Carlos Merten

22 de maio de 2013 | 21h02

CANNES – Há um tema da linguagem que é sempre muito forte no cinema de Abdellatif Kechiche, como sabem os espectadores que amaram L’Esquive e La Graine et le Moullet. O tema volta em A Vida de Adèle, com o qual ele participa da competição. Fala-se muito no filme. As personagens discutem literaturas, pintura, relacionamentos. A protagonistas é professora de crianças – começa contando histórias (Os Três Porquinhos) e entra no processo de alfabetização. Essa é a linguagem, digamos, oral e escrita, mas há outra que Abdel trabalha em A Vida de Adèle, e é a do corpo. O filme é sobre uma garota que começa ela própria na escola. Vai para a cama com um colega, mas descopbre que as garotas a atraem muito mais. Sofre incompreensão, discriminação, mas segue em frente descopbrindo sua sexualidade. O filme tem muitas cenas de sexo entre Adèle Exarchopoulos, que faz a personagem homônima, e Léa Seydoux. Elas se lambem, penetram com a língua e os dedos, tudo tão bem coreografado que parece real – explícito. A questão nãso é o voyeurismo, mas essa nova linguagem do próprio corpo que Adèle descobre e vira uma necessidade visceral. Elas volta aos garotos, mas a penetração não enche seu vazio. Depois da linguagem do corpo e da separação – outra separação -, vem… O quê? Quem acompanha o blog sabe que gostei muito de alguns filmes, em diferentes seções. Na competição, meus favoritos eram – são – os asiáticos, Jia Zhang-ke e Hirokazu Kore-eda, aos quais se somaram dois europeus, o italiano Paolo Sorrentino e agora Kechiche. O festival ainda tem mais dois diuas de competição, e serão filmes como os de Alexander Payne, Roman Polanski e James Gray, mas eu confesso que projetei muita expectativa em Michael Kohlhaas, por conhecer o texto original e haver visto a adaptação de Volker Schlondorff nos anos 1960. Pode vir coisa boa por aí, mas se o festival terminasse hoje acho que meu preferido seria o filme de Kechiche, porque é muito bom, mas também porque no momento em que se discute o casamento gay na França – e tem havido muitas manifestações, pró e contra -, o aval de alguém como Steven Spielberg seria importante e poderia agregar muito ao debate. Já acho difícil, porém, que A Vida de Adèle não ganhe pelo menos o prêmio de atriz para Adèle Exarchopoulos. Ela é magnífica, embora Léa Seydoux também seja ótima, e há o precedente de premiações conjuntas em Cannes, a última das quais creio que tenha sido Élodie Bouchez e Natacha Regnier, por A Vida Sonhada dos Anjos, de Erick Zonca, acho que em 1998. Um prtêm,io para as duas não seria injusto, mas eu o atribuiria a Adèle. Quando o filme estrear no Brasil, vamos ver se vocês não me dão razão.

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