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Diário da Croisette (15)

Luiz Carlos Merten

21 de maio de 2013 | 20h23

CANNES – Mal tive tempo de acrescentar o post anterior, depois de assistir ao Liberace de Steven Soderbergh, Behind the Candelabra. Achei bem ruinzinho, como imagino que vocês tenham percebido e espero que Steven Spielberg e seus jurados nao cedam à tentação de premiar Michael Douglas por sua representação da homossexualidade, por meio da polêmica personagem. Seria uma injustiça com Toni Servillo, sempre poderoso no cinema do italiano Paolo Sorrentino. Então, falemos antes do diretor. Hoje, conversava com José Carlos Avellar e lhe dizia que gostava muito de Sorrentino. Sim, mas qual, ele quis saber? Estamos de acordo que o melhor é o de As Consequências do Amor e O Amigo da Família. Não gostamos tanto (no plural) de Il Divo e eu menos ainda de This Must Be the Place, cujo título no Brasil sempre esqueço, com Sean Penn. O novo Sorrentino chama-se La Gran Bellezza e, de certa forma, reinventa A Doce Vida, de Federico Fellini. Mostra Servillo como escritor que fica em um só livro – grande – e entra para o jornmalismo, fazendo o circuito das celebridades. Com grande potência nas imagens, Sorrentino filma festas, suicidios e enterros para dar seu testemunho sobre um mundo em que reinam o cinismo e a falsidade. Qual é o papel da arte nisso tudo? O jornalista Servillo entrevista uma artista que se joga numa parece durante uma performance e se rebenta toda. Desmonta seu dicurso estético que não se sustenta. Logo vem a menina que ganha milhões com outra performance, jogando tinta numa tela. Esse é um episódio particularmente intenso, seguido pela visita a obras de arte mais tradicionais, alojadas em palácios romanos, mas a grande cena é quando Servillo bate forte numa escritora que se coloca num pedestal, mas tem o rabo preso, na arte e na vida. Roma, no melhor estilo de Fellini, é a gran puttana, mais que a grande beleza e, aliás, a questão é mesmo essa – onde está a beleza? Gostei demais de Toni Servillo e gostaria muito de vê-lo, enfim, recompensado, mas não ponho muita fé. Deixem-me fornecer bala para quem quiser acirrar as contradições de Sorrentino. Ele critica a corrupção, o dinheiro e o poder, mas o principal patrocionador do filme é um banco que tem direito a cenas em frente a suas agências. Saí do Sorrentino com a cabeça a miul e fui entrevistasr… Marion Cotillard, que faz um papel pequerno mas decisivo no filme do marido, Guillaume Canet. Blood Ties é o remake norteamericano de um filme francês em que Canet era ator, ao lado de François Cluzet. Dois irmãos, um criminoso e outro policial, ligados pelos laços de sangue do título. O filme foi escrito pelo diretor com James Gray, que também dirige Marion em The Immigrant, que passa amanhã ou depois. O 66.º festival entra na reta final. Gosto demais de O Homem Que Grita e, por isso mesmo, me decepcionei com o novo filme de Mahaat-Saleh Haroun, Grigris. Um cara aleijado, com uma perna seca, vira dançarino numa balada, uma espércie de Travolta africano. Envolve-se com uma prostituta, o crime. O filme começa bem, e termina mal, embora o desfecho pouco crível possa ser visto como solução simbólica para os problemas do Chade, um dos mais miseráveis entre os países africanos. Jantei e aí foi a vez de Claire Denis na mostra Un Certtain Regard. A sala Claude Debussy estava repleta de grandes nomes – Jane Campion, Costa-Gavras e Catherine Deneuve, que foi  prestigiar a filha. Chiara Mastroianni, cada vez mais bela como mulher e segura como atriz, forma dupla com Vincent Lindon. A diretora dá um tempo nas suas aventuras africanas e mergulha no submundo parisiense – Les Salauds. Não gostei muito, embora o filme tenha coisas ótimas, e empaquei com o final que encantou Tiago Stivaletti. O aspecto mais perturbador de Les Salauds tem estado em discussão em vários filmes da seleção oficial. Vincent Lindon pega em armas para tentar proteger a sobrinha, filha da irmã, que sofreu violência sexual. Como o gay apaixonado pelo serial killer de L’Inconnue du Lac e a mulher atraída pelo estranho que põe para dentro de casa (e vai destruir sua família) em Borgman, a garota se deixa possuir e brutalizar pelo agressor. O mal que as pessoas fazem a elas mesmas. Embora não gostando tanto do filme, gostei da sessão. Aprovreitando que Jane Campíon estava na sala, Claire lembrou que exibiu seu primeiro longa em Veneza no ano de An Angel in My Table, da diretora australiana. Claire disse que existem boas e más diretoras, como existem bons e maus diretores (homens). Mas ela também disse que Jane Campíon a convenceu de que há um olhar feminino e nos seus momentos de dúvida ou desânimo, sempre toma Jane como exemplo de superação. Já passa da 1 da manhã aqui. Recebi notícias de São Paulo. Meu amigo Dib Carneiro foi operado e passa bem. Preciso dormir porque daqui a pouco verei… Only God Forgives, o novo Nicolas Winding Fern, com Ryan Gosling. É um autor que me interessa muito depois de Drive.

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